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Fábio Sorge: Ninguém pensou nos pobres

FÁBIO JACYNTHO SORGE | 20/11/2018 | 07:30

Na última semana, a imprensa noticiou o fim do programa “Mais Médicos”, e com isso, os médicos cubanos irão deixar o país até o dia 25 de dezembro. Havana tomou a iniciativa de encerrar a parceria, após várias indicações do presidente eleito, Jair Bolsonaro, de que o programa seria alterado, com a proibição de retenção dos salários dos médicos e com a exigência do Revalida (o exame de revalidação do diploma para quem se formou no exterior).
O governo eleito argumenta que os médicos trabalham em regime de escravidão e que não poderia compactuar com esse fato. Com o fim do acordo selado na gestão da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2013, o regime cubano deve perder 332 milhões de dólares (ou mais de R$ 1,1 bilhão) por ano e cria mais um desafio econômico para o país, que há 56 anos sofre um duro embargo comercial dos Estados Unidos. Já o Brasil deve perder 8.332 médicos cubanos, dos 16 mil que atuam no “Mais Médicos”.
O programa teve o grande mérito de possibilitar que áreas longínquas e rincões do país tenham o atendimento de médicos, sendo que 301 profissionais estão em Distritos Sanitários Especiais Indígenas e 8.031 em municípios.
O presidente eleito tem todo o direito de antagonizar com Cuba, não aprovar o regime comunista da ilha e nem a forma como os médicos do programa são renumerados. Como Chefe de Estado é dele a palavra final sobre a política externa.
Porém, é dele também a responsabilidade de possibilitar o acesso à saúde a todos os brasileiros. Com a saída dos 8.332 médicos cubanos, quem irá atender a população mais carente que se beneficia desses serviços?
Ao se tomar essa decisão, ninguém pensou nos pobres. Isso porque discordâncias ideológicas vêm depois de prestação de serviço público de saúde. Assim, se o governo eleito quisesse retirar os cubanos, tinha o dever de pensar em uma forma de manter o atendimento médico. E se não fosse possível manter o atendimento, a saída dos cubanos deveria ter sido anunciada após se chegar a uma solução.
Como nada disso foi feito, o presidente eleito criou um problema a agora compete a ele, apresentar a solução que se espera, contemple os mais humildes.
Preocupada com a situação, a Defensoria Pública da União entrou com Ação Civil Pública para manter as regras atuais do programa “Mais Médicos”, segundo a DPU, o objetivo é garantir a continuidade dos serviços prestados à população, uma vez que 29 milhões de pessoas podem ficar sem médico.
Não é fácil governar um país de dimensões continentais igual o Brasil, mas certamente, todo o governo, ao tomar decisões, deve pensar, especialmente, nos mais pobres, pois são eles os principais atingidos pelos equívocos e acertos do presidente.

FABIO JACYNTHO SORGE é defensor público do estado de São Paulo e coordenador da Regional de Jundiaí

Foto: Rui Carlos/Jornal de Jundiaí

Foto: Rui Carlos/Jornal de Jundiaí


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