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Fábio Sorge: Um povo sem memória é um povo sem futuro

FÁBIO SORGE | 05/06/2018 | 06:00

Na última semana, tivemos uma greve de caminhoneiros que parou o país. O governo estava completamente perdido, sem sequer saber a quem procurar para negociar o fim da paralisação. Dentro das exigências dos grevistas, chamou a atenção o pedido de intervenção militar. Se o pleito era real ou mais um caso de notícia falsa, fato é que o ressurgimento desse tema assusta. É que a crença em uma intervenção das Forças Armadas na arena política como solução dos problemas não é nova e somente reforça o caráter autoritário de alguns setores de nossa sociedade. A primeira intervenção militar após a declaração da Independência (1822) se deu com a proclamação da República, no distante 15/11/1889.

Foto: Rui Carlos/Jornal de Jundiaí

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Na verdade, a queda do então imperador Pedro II marcou um século de atuação dos militares na política nacional. E os resultados não foram bons. Tivemos a República da Espada, com os governos dos marechais Deodoro da Fonseca e de Floriano Peixoto. Durante toda a República Velha (1889-1930), os quartéis se agitaram, intervindo nos destinos da nação. Rui Barbosa (1849-1923) conduziu nos idos de 1910 a Campanha Civilista para consolidar a ordem civil no Brasil. A revolução de 1930 – que derrubou o presidente Washington Luís – contou com o amplo apoio das Forças Armadas que, 15 anos depois, em 1945, iriam depor o ditador Getúlio Vargas.

Aliás, o período de 1946 a 1964 foi marcado por grande intervenção dos militares na política, tendo de haver apoio militar para posse de Juscelino Kubitschek, em 1956. Isso sem contar que, em, 1954, havia um golpe em curso contra Vargas que só foi debelado em razão do seu dramático suicídio. Finalmente os militares chegaram ao poder em 1964, ficando até 1985. Em 20 anos de poder, qual foi o legado do governo militar? Truculência, autoritarismo e atraso. Na economia, o milagre econômico dos anos 70 levou à hiperinflação dos anos 80, resultado direto da desastrada política econômica dos militares. No campo das liberdades, herdamos a cultura de desrespeito aos direitos humanos que afeta até hoje nossa visão de segurança pública.

No campo dos debates, passamos a entender que a oposição deveria ser calada e que o oponente deveria ser destruído sem qualquer respeito ao diálogo. Como a imprensa foi silenciada, não podendo noticiar os excessos, criou-se a impressão de que era uma época melhor. Ledo engano: os problemas apenas eram escondidos. Não houve qualquer coisa de boa nesse tempo, exceto a lição de que o autoritarismo não resolve os problemas, ensinamento que não deve ser esquecido, pois um povo sem memória é um povo sem futuro.

FABIO JACYNTHO SORGE é defensor público do estado de São Paulo – Vara do Tribunal do Júri – e coordenador da Regional de Jundiaí


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