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Fermento do mal

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE | 19/03/2020 | 11:20

O jovem, que conheci menino, com seus cabelos loiros esvoaçando ao jogar futebol, veio me cumprimentar e se colocou em desabafo. O pai, que não toma uma atitude para acertar o passo, cobra dele atitudes para resolver seus problemas. Esquiva-se, embora, se o pai precisar de verdade, estará de braços abertos.

Misturado à aguardente, continuará somando pesadelos. Recorda-se das surras, todas sem justificativa, como vingança pelas atitudes da mãe ao se afastar das elucubrações do sogro. O avô, conforme me disse, mexia com o mal. Era adepto de magias maléficas, rituais satânicos, e chegou a ganhar dinheiro com as “encomendas” para prejudicar os desafetos de quem o contratava. Sacrificavam animais e até mesmo tomavam o sangue deles, isso sem falar nos célebres vodus para destruir alguém.

A mãe do jovem participou, como outros integrantes da família, até que se converteu a uma religião cristã. Naquela época, todos os dias o pai dele chegava alcoolizado e os parentes, na tentativa de se vingar da mudança da esposa, inventavam comportamentos inadequados do filho. Tomado pela embriaguez, o espancava. Agora entendo o motivo de, na infância, ser um garoto enfezado.

Não creio na eficácia de feitiços, mas podem impressionar psicologicamente os que o aceitam e desequilibrar quem observa. Isso sem dizer que dar asas aos instintos maus – e quem não os tem – é solo fértil para Lúcifer; exercício diabólico que vicia.

Após saber desses acontecimentos, refleti sobre a terra árida do entorno dos rituais, das casas sem floreiras e pequenos jardins, das cantigas de ninar e de roda inexistentes, das bolinhas de sabão que não se espalharam pelo ar. Substituíram o orvalho pelo sangue escorrido dos animais, com a promessa de que vingariam os inimigos de quem investia nos atos macabros. Refleti sobre as tragédias como assassinatos, suicídios, transtornos, uso de corpos, batidas do coração encruadas…

Deus, no entanto, é maior: é misericórdia e bondade. Os envolvidos todos têm a possibilidade de purificar as mãos, a mente e o coração para saírem das trevas e darem lugar ao Céu. Os comprometidos podem escolher sair das próprias desgraças e dos infortúnios dos seus. O exercício da benevolência engrandece o ser humano.

O jovem, por sua fé, apesar das lembranças tristes, em meio a tudo isso, se tornou sinal de salvação.

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE é professora e cronista


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