Opinião

Fernanda Montenegro


‘Prólogo, ato, epílogo’ é o título da biografia de Fernanda Montenegro, volume lançado pela Companhia das Letras. Em depoimento à jornalista Marta Góes, Fernanda Montenegro relembra sua trajetória de 90 anos de vida (completados neste mês de outubro) e pouco mais de 70 de atuação. Ao mesmo tempo, o leitor acompanha um panorama da história contemporânea do Brasil, traçado pela neta de imigrantes italianos e portugueses, nascida no subúrbio do Rio de Janeiro, mulher que não renega suas origens e orgulha-se do legado familiar bem misturado e brasileiro. A artista que ao subir no palco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em 1966, para receber seu primeiro prêmio Molière como atriz, saudou o finado avô, operário gesseiro responsável por parte do acabamento daquele templo das artes. À memória e à disposição de Fernanda em revelar-se, junta-se o extraordinário trabalho de Marta Góes para encadear tamanha quantidade de fatos e informações, transformando o depoimento numa leitura rápida e prazerosa. O livro - há muito queria usar essa frase feita - é daqueles que não se larga, que o leitor não quer deixar de lado, sempre avançando mais. Passa-se da crônica da periferia do Rio, nas décadas de 1930 e 40, dos registros familiares, para o início profissional. Da mocinha que estudou para ser secretária bilingue, mas que passou em teste e tornou-se locutora de rádio. Trabalhou na emissora do Ministério da Educação, onde também foi atriz de radionovela. O caminho foi desenhado por ela mesma (com a bênção das contingências do período). Migrou para o teatro e para a televisão, veículo que engatinhava no início da década de 1950 e nos quais a atuação era ao vivo, sem chance de gravar ou refazer. Foram mais de trezentas peças nos teleteatros. Fez cinema (só em 2019, participou de três produções). Foi indicada ao Oscar pelo papel de Dora, em ‘Central do Brasil’, filme de Walter Salles, lançado em 1998. O teatro lhe deu o companheiro de vida, o ator, diretor e produtor Fernando Torres. Tiveram dois filhos - a atriz e escritora Fernanda e o cineasta Cláudio -- e ela enviuvou em 2008. Por seu trabalho, ganhou reconhecimento. O livro, sem cabotinismo nem pieguice, mostra a determinação da artista, grandiosa em seu ofício. Insultada recentemente por um ex-diretor teatral, recém-convertido ao lodaçal dos intolerantes, ela não revidou. Sobra na atriz a dignidade que falta ao agressor. FERNANDO BANDINI é professor de literatura no ensino médio  

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