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Fernanda Montenegro

MARGARETH ARILHA | 16/10/2019 | 07:30

Virei gente vendo e ouvindo Fernanda Montenegro. Grande ícone em minha juventude, nascida em 1929, no olho do furacão da grande crise econômica global, Fernanda tornou-se no Brasil e no mundo, um emblema de dignidade, fortaleza, inteligência, sensibilidade, competência, humanidade, solidariedade, brilho, altivez.

E é isso que segue comprovando diante das estapafúrdias declarações que vem recebendo de membro do governo federal, de maneira estonteantemente brutal.

Uma atriz com quem aprendi um pouco mais do que significa a vida e de seus reveses, da possibilidade de me aproximar do desejo, do que eu aspiro, do que é possível e do que não é possível realizar; da falta, das possibilidades e das incompletudes humanas.

Fernanda trouxe a todos nós, a proximidade com o Bem e com o Belo, ajudou-nos a acariciar dores e a entende-las mais de perto. Seus famosos monólogos, metáforas espraiadas de valentia, cingiram em nossos corações e mentes a profunda reflexão sobre o medo de conhecer a condição humana, e em particular, das dores de ser mulher.

Não é de se estranhar que receba acusações tão incompatíveis com sua história de vida pessoal, social e política. Fernanda fez teatro, fez cinema, fez televisão, é atriz, foi locutora, foi radialista e considerada a grande dama do cinema e da dramaturgia do país.

Foi a única brasileira já indicada ao Oscar de melhor atriz, e a única atriz indicada ao Oscar por atuar e língua portuguesa, com Dora, personagem do filme Central do Brasil, de 1998.

Com ele também recebeu o premio Urso de Prata de Berlim, e vários outros prêmios, inclusive americanos. Foi a primeira atriz contratada pela Rede Tupi em 1951, onde estrelou inúmeros teleteatros. Em 1961 fez o ‘Beijo no Asfalto’, de Nelson Rodrigues, com direção de seu marido e ator, Fernando Torres
Muitos trabalhos desta natureza se seguiram. Numa família tão artística, sua filha, Fernanda Torres, resplandece e segue seus mesmos maravilhosos e dignos passos. Abrindo o cenário de ameaças em que a mãe vem vivendo, Fernanda traz a público o apoio ao lançamento do livro ‘Prólogo, ato, epílogo’ de sua mãe, em momento de muito carinho de amigos e familiares, a esta mulher de agora 90 anos.

Chamada de sórdida, e canalha, recentemente, por quem deveria cuidar de seu patrimônio nacional, Fernanda coroa nossa vida nacional de fagulhas de inteligência e bom senso e compromisso ético e político. Um exemplo a seguir.

MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo), da Unicamp


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