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Fernando Bandini: A pasárgada de Bandeira

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI | 17/10/2018 | 07:30

Poema clássico de Manuel Bandeira (1886/1968), “Vou-me embora pra Pasárgada” foi publicado em 1930, no livro “Libertinagem”. “Vou-me embora pra Pasárgada/Lá sou amigo do rei/Lá tenho a mulher que eu quero/Na cama que escolherei/Vou-me embora pra Pasárgada”. Os versos caíram no gosto popular e o texto virou exemplo de procura pelo paraíso em vida. “(…) Aqui eu não sou feliz/Lá a existência é uma aventura/De tal modo inconsequente/Que Joana a Louca de Espanha/Rainha e falsa demente/Vem a ser a contraparente/Da nora que nunca tive”.

Nas estrofes, alternam-se vontades de uma criança (”E como farei ginástica/Andarei de bicicleta/Montarei em burro brabo/Subirei no pau- de-sebo/Tomarei banhos de mar”!) com os desejos de um adulto: “Em Pasárgada tem tudo/É outra civilização/Tem um processo seguro/De impedir a concepção/Tem telefone automático/Tem alcaloide à vontade/Tem prostitutas bonitas/Para a gente namorar”. Nesse mundo da evasão e do sonho, o eu lírico encontra a paz e a tranquilidade sequestradas da realidade agressiva e enfadonha (“E quando estiver cansado/Deito na beira do rio/Mando chamar a mãe-d’água/Pra me contar as histórias/Que no tempo de eu menino/Rosa vinha me contar”).

Conta o poeta que a palavra “Pasárgada” encantou-o desde que, aluno do então curso ginasial, aprendera que ela era a cidadela mandada construir pelo rei Ciro, da antiga Pérsia, para o monarca repousar. Com o tempo, passa a significar o lugar paradisíaco, a “terra prometida”, o “eldorado” resplandecente e fascinante. “E quando eu estiver mais triste/Mas triste de não ter jeito/Quando de noite me der/Vontade de me matar/Lá sou amigo do rei/Terei a mulher que eu quero/Na cama que escolherei/Vou-me embora pra Pasárgada.”

Em uma antologia de Bandeira, o crítico Emanuel de Moraes anota a respeito do poema famoso: “Homens há que conseguem transformar em realizações, capazes de satisfazer as suas necessidades espirituais, todos os instantes da vida cotidiana. Outros não o conseguem e a vida diária se lhes torna insípida se vivida apenas dentro dos seus estreitos limites. Buscam, então, a libertação dessa insipidez, ou da trágica realidade que os mantém incompletos (…); buscam libertação nas formas do sonho, transplantando para o futuro imaginário todos os desejos que trazem recalcados na memória”. Então fica combinado: se o caldo entornar, corre-se para Pasárgada.

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI é professor de Literatura no Ensino Médio

Foto: Arquivo/Jornal de Jundiaí

Foto: Arquivo/Jornal de Jundiaí


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