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Fernando Bandini: Bertasso, Veríssimo e Cia. Ilimitada

FERNANDO BANDINI | 27/06/2018 | 06:00

Todo mundo conhece Érico Verissimo, um dos maiores prosadores da literatura brasileira, autor de clássicos como “Incidente em Antares”, mestre na arte de elencar personagens e arranjá-los em tramas envolventes, daquelas que o leitor não deixa por nada. Mas há outra de suas habilidades que deve ser reconhecida: a de um ousado e criativo editor de livros. Pois o escritor gaúcho foi um dos grandes editores brasileiros, nos idos de 1930 e 1940. Os fatos aparecem em “Um certo Henrique Bertaso”, livro de 1972, em que Verissimo narra sua amizade com o herdeiro da Livraria do Globo, em Porto Alegre, e a criação da Editora Globo, uma das melhores casas publicadoras que o país conheceu.

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O amor pelos livros afinou a camaradagem da dupla. Verissimo, um jovem recém-casado, leitor curioso e voraz, procurou emprego na incipiente editora – dirigida pelo também leitor compulsivo Henrique. A editora nascia como braço da poderosa livraria gaúcha. Dessa amizade, em que somaram conhecimento, inventividade e boa dose de atrevimento, nasceu a empresa que ajudou a profissionalizar o mercado de livros brasileiro, com coleções cuidadosamente traduzidas e editadas. No quesito tradução, a Globo destacou-se. Deu condições de trabalho (sala própria, livros de consulta e remuneração fixa e digna) aos tradutores, montando um time em que brilharam craques como Mário Quintana, Herbert Caro, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Rónai e Cecília Meireles.

A Globo diversificou seu catálogo: conciliou livros de apelo pop e “alta literatura”. Criou a Coleção Nobel, dirigida por Aurélio Buarque de Hollanda. A série trazia, além dos premiados da Academia Sueca, outros grandes nomes da literatura universal. Lançou coleções voltadas ao leitor mirim, público pouco lembrado na época. No plano nacional, editou Simões Lopes Neto e Dyonélio Machado. Mas não só de sucessos viveu a Globo. Verissimo conta, de maneira divertida, como seu faro micou e não lançou no Brasil “E o vento levou”, livro recusado pela Globo, que se tornou “best-seller” mundial da década de 1930, levado depois para o cinema em filme de bilheteria retumbante.

O escritor deixou a rotina diária na editora em fins da década de 1940 para lecionar em universidades dos Estados Unidos, mas manteve o contato, sugerindo títulos e autores. “Um certo Henrique Bertaso” conta essa história de amizade e paixão pelos livros.

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI é professor de Literatura no Ensino Médio

 

Foto: Arquivo/Jornal de Jundiaí

Foto: Arquivo/Jornal de Jundiaí


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