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Fernando Bandini: Cartas brasileiras

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI | 14/11/2018 | 07:30

Getúlio Vargas serenamente deixa a vida e entra para a História. Pero Vaz de Caminha anuncia ao rei Dom Manuel o “achamento” do Brasil. Oscar Niemeyer recusa homenagem por não se achar digno de recebê-la. Chico Buarque teima com Vinícius de Moraes a respeito de uma letra de canção.
Essas são algumas das “Cartas Brasileiras”, livro organizado pelo jornalista Sérgio Rodrigues, e editado pela Companhia das Letras, em que figuram algumas das mais famosas correspondências do país. Política, artes, história e vida pessoal são alguns dos fios que vão se entrelaçando na composição do volume. Inspirado no livro “Cartas extraordinárias”, de Shaun Usher, Rodrigues adaptou o tema ao contexto brasileiro, e o resultado é dos melhores.
Não faltam assuntos e figurinhas famosas ou desconhecidas trocando confidências, cobrando atitudes, questionando valores, compartilhando emoções em cartas, essas folhas de papel manuscrito ou datilografado que a era digital – se não sepultou – trocou pelo correio eletrônico e pelo WhatsApp.
Uma das cartas mais emotivas é a de Honorina, primogênita do historiador Capistrano de Abreu. Separados desde 1911, quando ela ingressou num convento, mantiveram correspondência, mas nunca mais se viram. Em missiva de 1927, a filha religiosa suplica mais vez e sem sucesso ao pai agnóstico que se converta ao cristianismo.
Tem uma do século 18, em que um estudante brasileiro residente em Paris pede a Thomas Jefferson, na época embaixador na França, e futuro presidente dos Estados Unidos, uma “mãozinha” para a independência do Brasil.
Tem outra de Charles Darwin, de passagem pela Bahia e Rio de Janeiro, deslumbrado com a natureza tropical sul-americana. E mais aquela do escritor Lima Barreto, manuscrita em setembro de 1922, um mês antes de sua morte, em que maldiz este povo que abandona bibliotecas, museus e concertos e só se preocupa com o “football”. Ou a do consagrado Mário de Andrade, em 1942, encorajando o novato Fernando Sabino a escrever não só literatura, mas também cartas.
Tem até aquela de Michel Miguel, beirando o melodrama, em que o penúltimo usuário de mesóclise anuncia em dezembro de 2015 para a presidente que estava deixando a banda de Dilma para seguir carreira solo. Emocionantes, anedóticas, informativas, essas “Cartas Brasileiras” podem ser consultadas ao acaso ou lidas na sequência. A curtição é imensa.

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI é professor de Literatura no Ensino Médio

Foto: Arquivo/Jornal de Jundiaí

Foto: Arquivo/Jornal de Jundiaí


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