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Fernando Bandini: Chico Buarque leva o Camões

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI | 29/05/2019 | 07:30

O compositor pop, dramaturgo e romancista Chico Buarque de Hollanda faturou o Prêmio Camões, o mais importante para autores de língua portuguesa. Conferido anualmente desde 1989, o Camões reconhece escritores da comunidade lusófona espalhados pelo mundo. Já foram laureados nomes titulares em qualquer seleção de grandes, como os brasileiros João Cabral e Jorge Amado, os portugueses José Saramago e Miguel Torga, o angolano Pepetela e o moçambicano Mia Couto. Além da distinção, o contemplado leva para casa 100 mil euros. Criado em 1988, por um acordo entre Brasil e Portugal, a primeira entrega ocorreu no ano seguinte, e Miguel Torga foi o escolhido. Chico foi premiado, segundo a comissão julgadora, pela “transversalidade de sua obra”, que “dialoga com várias formas de arte”. É o craque versátil que “brinca nas onze”, para manter o linguajar do futebol, universo tão querido pelo músico.

Vou passar ao largo do dramaturgo coautor de “Gota d’água” e “Calabar”; deixar de lado o romancista de “Estorvo”para me deter brevemente no compositorpopular. E mesmo nessa área, evito o campo minado da canção de protesto e engajada para a qual Chico tanto contribuiu em qualidade e quantidade, e fico no território das relações pessoais. Poucos tiveram a sensibilidade desse carioca para falar do universo privado do amor e suas tramas: o criador de vozes femininas que, “com açúcar, com afeto” tratavam de seu parceiro; desesperavam na sua partida (“no tapete atrás da porta, reclamei, baixinho”), mas também daquelas que lembravam que os haviam superado (“E tantos homens me amaram, bem mais e melhor que você”). Ou das que se vingaram (“Pra mim, basta um dia, não mais que um dia…”). Também lembrou as vozes masculinas devastadas pelo fim do romance: “eu bato o portão sem fazer alarde/eu levo a carteira de identidade/e a leve impressão de que já vou tarde”. E não deixou, de forma bem-humorada, de “aconselhar” tanta gente a fazer por merecer seu amor (“por trás de todo homem triste há sempre uma mulher feliz, e atrás dessa mulher, mil homens sempre tão gentis”). Ou daqueles que são feitos de gato e sapato por ela (“saiu pra comprar cigarro,/que sarro, voltou toda sorridente”).

Chico Buarque já disse em entrevista que gostaria de ser lembrado como um “sambista que escreve romances”. Modéstia. Um “grande talento que brilha em mais de uma área” fica mais adequado.

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI é professor de Literatura no Ensino Médio

Foto: Arquivo/Jornal de Jundiaí


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