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Fernando Bandini: Dezoito dias do possível

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI | 12/03/2018 | 06:00

Matias Spektor é pesquisador da Fundação Getúlio Vargas e colunista de um grande jornal paulistano. Publicou no ano passado o livro “18 Dias”, em que conta a transição dos governos de Fernando Henrique e Lula, em 2002, sob a expectativa da receptividade ou não da Casa Branca, de George W. Bush, ao recém-eleito.

O texto mostra como FHC e Lula, vencendo resistências de seus aliados, articularam estratégia conjunta que garantisse transição sem solavancos na ainda adolescente democracia brasileira, tão sujeita a faniquitos.

A história começa em 28 de outubro de 2002, dia seguinte à vitória eleitoral do petista sobre o tucano José Serra, e termina em 10 de dezembro, quando o então presidente Bush recebe na Casa Branca o ainda não empossado Lula. Pela primeira vez Washington recebia oficialmente um recém-eleito antes de sua posse. Para esse encontro, foi preciso muito trabalho das equipes brasileiras – a tucana, que estava de saída, e a petista, que chegava.

Para o livro, o autor entrevistou diplomatas, políticos, empresários, jornalistas e assessores presidenciais, além dos protagonistas Fernando Henrique, Lula e Condoleezza Rice, conselheira de segurança nacional dos EUA e um dos nomes mais influentes do governo George W. Bush.

O retrato pintado certamente não satisfaz petistas nem tucanos mais exaltados, pois o autor não carrega nas cores nem de um nem de outro lado, o que deve desagradar a todos. Melhor assim. Spektor, para tratar das nunca tranquilas relações entre o Brasil e os Estados Unidos, contextualiza os fatos, inserindo-os nas histórias recentes de Argentina, Paraguai, Colômbia, Peru, Venezuela, Iraque e outros tantos.

Com vasta documentação, incluindo arquivos pessoais e rigorosa pesquisa acadêmica – mas com texto ágil e acessível -, o livro retrata a história contemporânea sob a perspectiva da diplomacia e das complexas relações entre os países.

O subtítulo “Quando Lula e FHC se uniram para conquistar o apoio de Bush” mostra que, há uma década e meia, nós brasileiros tivemos duas das maiores lideranças trabalhando em conjunto. Se o fizeram por cálculo político, interesse pessoal, vaidade ou motivos outros o livro tenta responder. Mas mais do que isso, o trabalho de Spektor, sem ingenuidade nem simplificações, aponta para o diálogo como alternativa e deixa uma límpida sugestão de possibilidade e esperança.

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI é professor de Literatura no Ensino Médio


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