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Fernando Bandini: Dona Lygia, contista

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI | 01/05/2019 | 07:30

Uma antologia e tanto, reunindo grande parte da produção literária de Lygia Fagundes Telles. “Os contos”, editado no ano passado pela Companhia das Letras, foi organizado pela própria autora e traz histórias de seis livros diferentes, desde o volume “Antes do baile verde”, de 1970, até o mais recente, de 2012, “Um coração ardente”. Há também uma dezena de contos esparsos. Paulistana nascida em 1923, Lygia formou-se em Direito pela Universidade de São Paulo, e trabalhou como procuradora do Estado. Seu romance “Ciranda de pedra”, de 1954, marca o que ela mesma considera sua “estreia literária”. Contos anteriores, publicados no volume “Porão e sobrado”, de 1938, foram desconsiderados pela autora, que vê neles uma obra juvenil que não merece reedição. O volume de contos “Antes do baile verde”, de 1970, e o premiado romance “As meninas”, de 1973, consolidam seu prestígio como uma das grandes forças da literatura brasileira contemporânea. Dos contos de “Antes do baile verde” – presentes na antologia recém-publicada –, destacam-se o apavorante “Venha ver o pôr do sol”, uma pequena joia de terror, sem gota de sangue nem zumbis; e o hilariante “A chave”, em que um sexagenário marido só pensa em dormir, enquanto sua jovem-menos-trinta-anos segunda mulher só quer se divertir nas intermináveis festas noturnas a que o casal é convidado. Há também a história que dá título ao volume, na qual duas garotas querem brincar a apoteótica celebração da vida chamada carnaval, mas o doente agonizante do quarto ao lado lembra os cuidados que a chegada da morte exige. “O espartilho”, de 1991, do livro “A estrutura da bolha de sabão” é outra história memorável, em que a rica e despótica avó comanda a vida de parentes, agregados e empregados, manipulando-os por longo tempo, enquanto a neta observadora percebe o quanto de roupa suja precisa ser lavada na família quatrocentona. Ou o delicado “Ou mudei eu?”, em que a narradora se vê no redemoinho de consumo às vésperas do Natal. A sutileza das narrativas e a artesania da confecção, o talento, enfim, da escritora, confere a tudo um selo de qualidade raro, desses só estampados em obras de mestres verdadeiros.
Lygia Fagundes Telles foi eleita em 1985 para a Academia Brasileira de Letras, e em 2005 recebeu o Prêmio Camões, o mais prestigioso da literatura de língua portuguesa. Aos 96 anos, a autora vive na capital paulista.

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI é professor de Literatura no Ensino Médio


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