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Fernando Bandini: Gota d’água

FERNANDO BANDINI | 08/08/2018 | 06:00

No distante 1975, o dramaturgo Paulo Pontes e o compositor Chico Buarque se uniram para escrever a peça “Gota d’água”, que se tornou um clássico do teatro brasileiro. Contam os autores que a ideia veio da adaptação de Oduvaldo Vianna Filho para a TV da tragédia “Medeia”, do grego Eurípedes.

Em “Gota d’água”, os autores deslocaram o conflito entre o jovem Jasão e sua mulher Joana (a Medeia, no original) para um conjunto habitacional suburbano do Rio de Janeiro, na década de 1970. Em dois atos, conta a história, bem sabida e recontada de tantas versões, do homem que troca sua mulher mais velha por uma novinha. A escanteada deve se conformar com a situação, mas não é o que acontece (daí a máxima que sentencia não haver “força maior na natureza do que a fúria de uma mulher desprezada”).

Jasão, compositor de sambas, encanta-se com Alma, filha do poderoso Creonte, bicheiro e dono das casas do pedaço. A fim de ser reconhecido por sua obra (um samba de sua autoria finalmente torna-se sucesso popular) e ascender socialmente, aceita se casar com a garota, mas precisa deixar Joana, a mulher que tempos atrás “fizera dele um homem”.

Foto: Arquivo/Jornal de Jundiaí

Foto: Arquivo/Jornal de Jundiaí

Expulsa de sua casa por Creonte e humilhada, Joana vai punir Jasão com as armas de que dispõe: os dois filhos pequenos do casal. O texto amplia a discussão a respeito da força desproporcional e do arbítrio do poder (econômico, político e social) a que está submetida a população mais simples e pobre, vulnerável aos desmandos deste ou daquele.

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O abandono de Joana é o de milhares de mulheres que, sozinhas diante da truculência e da injustiça, são social e tacitamente incentivadas a “se conformar” e a “aceitar” sua situação (como as “Mulheres de Atenas”, da canção do mesmo Chico Buarque). As desditas de Joana e Jasão são acompanhadas por algumas obras-primas do cancioneiro do compositor (o tema “Gota d’água”, “Bem querer” e a insuperável “Só um dia”). A primeira montagem, que rodou o Brasil com sucesso de público e crítica, trazia Bibi Ferreira (na época casada com Paulo Pontes) como Joana; Roberto Bomfim interpretando Jasão; e Oswaldo Loureiro no papel de Creonte.

Em tempos de “empoderamento” (o palavrão esconde um belo conceito) feminino (e claro que sem adotar as soluções de Joana), vale a pena ler e reler a história dessa Medeia carioca, a mulher que deixou Jasão com um falso e efêmero gosto de sucesso e felicidade.

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI é professor de Literatura no Ensino Médio


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