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Fernando Bandini: Letrinhas e desenhos

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI | 25/07/2018 | 05:30

Há duas exposições em São Paulo, gratuitas e no mesmo local, que merecem ser visitadas. Uma trata de literatura e a outra, de arquitetura e design. O Itaú Cultural, na avenida Paulista, abriga até agosto a “Ocupação Antonio Candido”, em comemoração ao centenário do crítico literário e professor Antonio Candido de Mello e Sousa (1918/2017); e no mesmo espaço, há três andares para se conhecer a obra do arquiteto, desenhista de móveis, artista gráfico e empresário Sérgio Rodrigues (1927/2014). Em sua 40ª edição, a Ocupação – que, de maneira eclética, já passou pelas obras do compositor Cartola, do arquiteto Vilanova Artigas, do poeta Paulo Leminski, do cartunista Glauco – exibe agora a trajetória do maior crítico literário brasileiro. São painéis, vídeos, livros, manuscritos e um sem número de informações da vida do sociólogo e professor, um intelectual generoso, para quem a literatura é uma “necessidade fundamental e um direito de todo homem”.

O visitante confere o trabalho de quem analisava em rodapés de jornal autores estreantes e tarimbados. Candido foi dos primeiros, por exemplo, a realçar o valor dos então desconhecidos Clarice Lispector, Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto. O professor escrevia com o rigor de um ficcionista de primeira, mas utilizando uma linguagem clara e acessível para um público bastante amplo. Curadores e organizadores tratam de transformar a mostra num passeio informativo e saboroso.

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI é professor de Literatura no Ensino Médio

Para o arquiteto Sérgio Rodrigues, há três pavimentos ocupados pelas maquetes, desenhos, fotos, projetos e obras do artista. Desenhista de móveis bonitos e confortáveis (há uma saleta para o visitante sentar-se em algumas de suas poltronas), arquiteto que se especializou em desenvolver o interior de seus projetos (“onde as pessoas circulam, trabalham, vivem”), Sergio Rodrigues tornou-se também um empresário ao abrir e tocar sua própria fábrica de móveis.

A necessidade surgiu de um imprevisto: ao mandar executar o protótipo do “mocho”, banco de madeira de três pés, o marceneiro pediu uma semana para concluir o trabalho. Para surpresa de Rodrigues, o sujeito clonou, fabricou e vendeu uma dezena de bancos antes de entregar o pedido. Com amigos, o arquiteto fundou então a “Taba”, fábrica para produzir seus projetos e que virou sinônimo de qualidade e arrojo. Em comum às duas mostras, a beleza do trabalho dos homenageados. Imperdíveis.

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI é professor de Literatura no Ensino Médio


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