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Fernando Bandini: Mais cartas brasileiras

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI | 28/11/2018 | 07:30

A pedido de um leitor assíduo e amigo (e não é que há pelo menos um!), retorno à edição das “Cartas brasileiras”, o extraordinário volume organizado pelo jornalista Sérgio Rodrigues. Da primeira vez, citei dez das cartas publicadas, mas há outros muitos bons exemplos, das 80 missivas coligidas pelo organizador. Na década de 1920, Albert Einstein esteve no Brasil para palestras no Rio de Janeiro.
O físico alemão ficou impressionado com o que lhe contaram do trabalho de Cândido Rondon com os índios brasileiros. Mesmo sem tê-lo conhecido pessoalmente, Einstein escreve ao Comitê do Prêmio Nobel, na Noruega, indicando Rondon para o Nobel da Paz. Como se sabe, não foi ouvido. Três séculos antes, o padre jesuíta Antônio Vieira escreve ao rei português Dom João IV e relata a crueldade dos colonos para com os índios do Pará, submetidos a tratamento desumano nas lavouras de tabaco.
Desumanidade extrema é a do pai do jornalista e poeta Luís Gama, que vendeu o próprio filho como escravo. A mãe de Luís era escrava alforriada, da etnia nagô, e seu pai um fidalgo baiano que, ao empobrecer, vendeu o garoto de 10 anos de idade. Luís foi mandado para o Rio de Janeiro e de lá para Santos. Foi revendido e cumpriu a pé o percurso de Santos a Campinas, tendo passado por Jundiaí. Fugiu e alistou-se no Exército. Tempos depois, trabalhou como escriturário e passou a colaborar em jornais, tornando-se liderança republicana e abolicionista. Narra sua trajetória em correspondência de 1880.
No campo das amenidades, destaca-se a carta da estudante adolescente que, diante da dificuldade de encontrar material atualizado para pesquisa escolar, escreve em 1959 ao então presidente Juscelino Kubitschek querendo informações sobre a construção de Brasília. E pede pressa na resposta de JK, pois tem prazo para entregar seu trabalho.
Ou a de Santos Dumont tratando da falta de grana da família de garota que ele paquerava, na Paris de 1901. Ou ainda a intimidade do compositor baiano Dorival Caymmi ao escrever ao conterrâneo Jorge Amado, em 1976, na época residindo em Londres. Depois de recordar as belezas da terra natal, Caymmi diz ao “irmãozinho filho da puta” que o lugar do escritor não é na capital do império britânico, mas na Bahia.
O volume reproduz textos e fotos, e traz informações a respeito dos personagens e situações, sem deixar o leitor desamparado. Imperdível.

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI é professor de Literatura no Ensino Médio

Foto: Arquivo/Jornal de Jundiaí

Foto: Arquivo/Jornal de Jundiaí


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