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Fernando Bandini: O cartão de João Cabral

FERNAND9O PELLEGRINI BANDINI | 12/12/2018 | 07:30

O poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920/1999) nunca foi um sentimental, desses de escrever versos lacrimosos, açucarados ou emotivos. Também passou longe do alto astral e da alegria. Sua poesia – notadamente racional, marcada pela concisão – alcançou fama pela pesquisa formal e por um certo “antilirismo” de que tratam os críticos literários. Mas há um poema desse diplomata de carreira que, se nada tem de meloso, aproxima-se do otimismo. São os versos de “Cartão de Natal”, escritos em 1952: “Pois que reinaugurando essa criança/pensam os homens/reinaugurar a sua vida/e começar novo caderno,/fresco como o pão do dia;/pois que nestes dias a aventura/parece em ponto de voo, e parece/que vão enfim poder/explodir suas sementes: / que desta vez não perca este caderno/sua atração núbil para o dente;/que o entusiasmo conserve vivas/suas molas,/e possa enfim o ferro/comer a ferrugem/o sim comer o não.”
O tema natalino retorna em seu texto mais conhecido, o longo “Morte e vida severina”, cujo subtítulo é “auto de Natal pernambucano”, escrito entre 1954 e 1955. Nele o retirante Severino – depois de tanto marchar em cenário de desolação, escassez e morte, acompanhando o rio Capibaribe desde sua nascente no sertão até sua foz em Recife – só encontra alegria nos últimos versos do poema, quando do nascimento de uma criança, o filho de José, mestre carpina. O até então desolado Severino, que pensara em “abreviar” sua própria vida, vê no nascimento do menino o ressurgimento da esperança. Já no curto “Cartão de Natal”, a ideia de renovação e esperança desponta desde o primeiro verso, com o verbo “reinaugurar” e segue no frescor do pão, no caderno novo, no desejo de preservação do entusiasmo, do ferro a comer a ferrugem, do sim devorando o não. Imagens semelhantes aparecem em “Morte e vida”, quando o eu lírico fala da beleza do recém-nascido: “de sua formosura/ deixai-me que diga:/ é tão belo como um sim/ numa sala negativa”; “(…) belo porque tem do novo/ a surpresa e a alegria. /Belo como a coisa nova/ na prateleira até então vazia./ Como qualquer coisa nova/ inaugurando o seu dia./ Ou como o caderno novo/ quando a gente o principia”. O bom sobrepondo-se ao ruim, a beleza triunfando, a alegria espalhando-se na simplicidade. Propício para a época do ano, como os belos versos do poeta. E, sendo fiel a ele, é bom parar por aqui, sem marejar os olhos.

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI é professor de Literatura no Ensino Médio

Foto: Arquivo/Jornal de Jundiaí

Foto: Arquivo/Jornal de Jundiaí


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