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Fernando Bandini: O delator do futebol

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI | 12/06/2019 | 07:30

Um livro-reportagem mais parecido com roteiro de seriado, em que o protagonista é um sujeito que veio de baixo para superar dificuldades e conquistar o mundo. Mas o que seria uma história de superação virou um festival de horrores, com muita desonestidade e propina.

No livro “O delator – a história do corruptor devorado pela corrupção no futebol”, lançado em 2018, os jornalistas Allan de Abreu e Carlos Petrocilo contam a história de José Hawilla, repórter de esportes, nascido no interior paulista, que, em 30 anos, transformou-se no maior empresário do marketing esportivo do Brasil e fez de sua empresa Traffic uma das maiores do mundo. De assalariado endividado, inquilino de uma espelunca no centro de São Paulo, tornou-se magnata morador de mansão de luxo na Flórida, dono de rede de TV, fazendas de gado, e mais de 40 empresas registradas em seu nome. Mas houve outra transformação: Hawilla passou de empresário poderoso a delator “radioativo”. Apanhado pela polícia federal dos Estados Unidos, com provas robustas contra ele por seus métodos ilegais de conseguir a transmissão de torneios de futebol, Hawilla rompeu a “omertà”, o voto de silêncio dos mafiosos, e entregou seus comparsas. Preso em Miami por agentes do FBI-dedurado por antigo parceiro –, o antes influente empresário do esporte tornou-se fundamental por revelar métodos e valores das propinas pagas a cartolas de todos os continentes. Suas informações foram fundamentais para a operação que prendeu dirigentes – o brasileiro José Maria Marin dentre eles -no congresso da Fifa de 2015, num luxuoso hotel da Suíça. As cifras impressionam. Basta lembrar que para responder ao processo em liberdade, atado a uma tornozeleira eletrônica, Hawilla desembolsou 25 milhões de dólares, a serem descontados dos U$ 151 milhões que deveria pagar ao governo dos Estados Unidos (estimativa do montante que a Traffic lucrara ilicitamente em solo americano).

O livro disseca histórias do futebol no Brasil e no mundo protagonizadas por João Havelange, Ricardo Teixeira e apadrinhados. Tem Seleção Brasileira, CBF, Nike, Copas do Mundo… Argumentos variados para intermináveis sequências de “O poderoso chefão”, o clássico de Francis Coppola. Tudo numa linguagem clara e envolvente, que impede o leitor de largar o volume.
“O delator” mostra o mundo nem um pouco encantado parido por cartolagem, política, mídia e futebol.

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI é professor de Literatura no Ensino Médio

Foto: Arquivo/Jornal de Jundiaí


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