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Fernando Bandini: O grande fala do gigante

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI | 20/03/2019 | 07:30

A parada é das maiores: o brasileiro Carlos Drummond de Andrade presta homenagem ao português Luís de Camões. O grande poeta Drummond fala do maior de todos, Camões. Drummond reconhece a ascendência: em conversa com o ensaísta Gilberto Mendonça Teles, diz que o autor de “Os Lusíadas” era uma de suas referências (outra era a de Manuel Bandeira). A homenagem ocorreu em 1980. Aos 78 anos, Drummond escreveu “História, coração, linguagem” para lembrar os quatro séculos da morte de Camões (não se conhece a data e a cidade de seu nascimento, mas se sabe que morreu em Lisboa, em 1580). Publicou o poema no livro “A paixão medida”, de 1981, um dos últimos editados em vida (Drummond morreu em 1987, e pelo menos mais dois volumes de inéditos tiveram publicação póstuma). Nos 53 versos brancos (sem rima no final) do poema, Drummond relembra a imortalidade do gênio português: “Dos heróis que cantaste, que restou/ senão a melodia do teu canto?/As armas em ferrugem se desfazem,/os barões nos jazigos dizem nada”. O mineiro refere-se à conhecida abertura de “Os Lusíadas” (“As armas e os barões assinalados/Que da ocidental praia lusitana/ Por mares nunca dantes navegados (…)”). Diferente do outro, Drummond afirma que não foram os heróis da história portuguesa que permaneceram, mas sim os versos do mestre: “É teu verso, teu rude e teu suave/balanço de consoantes e vogais,/teu ritmo de oceano sofreado/que os lembra ainda e sempre lembrará”. De acordo com Drummond, Camões é a própria história: “Tu és a história que narraste, não/ o simples narrador. Ela persiste/mais em teu poema que no tempo neutro,/universal sepulcro da memória”. Os versos do mineiro lembram que Camões chega a ser o que outros artistas almejam, mas não alcançam: ver-se reconhecido naqueles que não têm ou não conseguem externar sua voz, suas dores e aspirações: “És a linguagem. Dor particular/deixa de existir para fazer-se dor de todos os homens, musical (…)/Volúpia de gemer, e do gemido/destilar a canção consoladora/a quantos de consolo careciam/e jamais a fariam por si mesmos?”. No final do poema, retorna ao amor, o mais conhecido dos temas camonianos: “Pelos antigos e pelos vindouros,/ foste discurso de geral amor./Camões – oh som de vida ressoando/em cada tua sílaba fremente/de amor e guerra e sonho entrelaçados…”. Quanto gigantismo e genialidade nesse encontro. A poesia agradece.

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI é professor de Literatura no Ensino Médio

Foto: Arquivo/Jornal de Jundiaí

Foto: Arquivo/Jornal de Jundiaí


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