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Fernando Bandini: O poeta e o político

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI | 07/11/2018 | 07:30

O artista recebe encomenda da qual não pode esquivar-se: escrever poema elogioso a um nobre empedernido, militar vitorioso e político de longa carreira. Foi o que ocorreu com o famoso poeta baiano Gregório de Matos Guerra, lá no distante século 17. Fora-lhe atribuída incumbência de enaltecer o fidalgo Luís de Meneses, terceiro conde de Ericeira, homem público de inquestionáveis valores e currículo invejável.

Para o autor de inspirada imaginação parecia tarefa fácil gabar as qualidades de quem aparentemente as tinha multiplicado. Mas eis que um mísero porém se apresentou: o poeta não fora com a cara do poderoso. Dessa maneira, como enfileirar elogios de quem parecia tão longe de merecê-los? Gregório escreve, então, um texto em que fala da dificuldade de se compor poemas dessa natureza, qual seja, laudatórios: “Um soneto começo em vosso gabo; /contemos esta regra por primeira,/Já lá vão duas e esta é a terceira,/Já este quartetinho está no cabo.”

Os quatro primeiros versos abrem o soneto em que os elogios deveriam aflorar, mas por enquanto, nem deram as caras. Continua o poeta: “Na quinta torce agora a porca o rabo: A sexta vá também desta maneira/na sétima entro já com grã canseira, /E saio dos quartetos muito brabo.” Note-se que o feminino (“quinta, sexta…”) usado diz respeito a “instância”, outra forma de se chamar um verso.

E segue Gregório de Matos, rumo ao final: “Agora nos tercetos que direi?/Direi que vós, senhor, a mim me honrais,/Gabando-vos a vós, eu fico um Rei./ Nesta vida um soneto já ditei,/Se desta agora escapo, nunca mais;/Louvado seja Deus, que o acabei.” Missão concluída sem um único atributo reconhecido nem um mísero elogio dispensado. Note-se que o sujeito lírico, ao dizer, “gabando-vos a vós eu fico um Rei”, apenas reforça a ideia de que caso elogie o “homenageado”, o poeta vai se sair bem na fita. Mas qualidade nenhuma aparece.

Dessa maneira, o popular “Boca do Inferno” – apelido que se colou ao autor – consegue criticar sem ser grosseiro nem tão agressivo como era de seu costume. Deixa subentendido o pouco apreço que nutre pela tal figura pública. Se vivesse hoje, Gregório talvez recebesse missão semelhante. E para elogiar recém-chegado governador de província não tão próxima da Bahia, destacaria do escolhido, quem sabe, a tonalidade da tintura de cabelo e a exuberância das mariposas que esvoaçam lépidas ao seu redor.

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI é professor de Literatura no Ensino Médio

Foto: Arquivo/Jornal de Jundiaí

Foto: Arquivo/Jornal de Jundiaí


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