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Fernando Bandini: O reino perdido de Genolino

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI | 15/05/2019 | 07:30

“Histórias de um professor de História” é o subtítulo de “O reino perdido”, livro do escritor sergipano Genolino Amado (1902/1989). Lançado em 1971 – e saudado na época por ninguém menos do que o crítico, ensaísta e tradutor Paulo Rónai – o volume foi republicado em 2018, pela editora Casarão do Verbo. Conta a trajetória em sala de aula do até então jornalista e escritor Genolino Amado, indicado na década de 1940 para lecionar História em escola pública municipal do Rio de Janeiro, nesse tempo capital do país. Genolino foi nomeado por Anísio Teixeira, numa ampla reforma promovida pelo célebre educador no ensino público brasileiro. A nomeação e ida para a escola são contadas pela saborosa narrativa do autor.

Funcionário do governo do Distrito Federal, o professor foi transferido para o serviço estatal de rádio e por lá ficou redigindo roteiros, programas e crônicas. Trabalhava ao mesmo tempo para um dos jornais de Assis Chateaubriand. Artigo assinado em que desancava aspectos da administração municipal acarretou sua saída da rádio e chegada à escola, como um “castigo” pelas críticas (sala de aula como “punição” diz muito de como há décadas autoridades conduzem a educação do país). Esse que deveria ser período de sofrimento e sacrifício tornou-se época de encantamento e empatia com as turmas de jovens do ensino médio da Escola Amaro Cavalcanti, na região central do Rio. Genolino desfila os muitos grupos de alunos (os aplicados, os desleixados, os irrequietos, os temperamentais, os invisíveis…), seus anseios e desejos, suas histórias, perspectivas e inquietações. Trata também dos colegas de magistério e funcionários da escola, em retratos precisos e carinhosos de tipos docentes e discentes que, no entra e sai de épocas, mantêm-se com pequenas modificações (de penteado, vestimenta e tecnologia em redor).

O livro torna-se boa leitura não só para professores, mas também para quem já frequentou escola, em algum momento da vida. Estão lá as pequenas vitórias e as inevitáveis derrotas do dia a dia, a convivência com a mocidade recheada de sonhos e projetos. O tempo da escola, que parece oferecer todas as oportunidades e a atribulada e saudável convivência com a diversidade. “O reino perdido” carimbou o passaporte de Genolino Amado para a Academia Brasileira de Letras, eleito em 1973. O escritor morreu no Rio de Janeiro, em 1989.

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI é professor de Literatura no Ensino Médio.

Foto: Arquivo/Jornal de Jundiaí

Foto: Arquivo/Jornal de Jundiaí


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