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Fernando Bandini: Odorico, o bem-amado

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI | 20/02/2019 | 07:30

O personagem nasceu em 1962, da imaginação do teatrólogo Dias Gomes: Odorico Paraguaçu, o pilantra e carismático prefeito da cidadezinha de Sucupira, no litoral da Bahia. Do teatro passou para a TV, em telenovela e série, e depois chegou ao cinema. São quase 60 anos de uma história que nasceu por encomenda e fez enorme sucesso por onde passou. Lembremos sua trajetória: em 1962, o diretor de teatro Flávio Rangel encomendou a Dias Gomes uma peça para o repertório do Teatro Brasileiro de Comédia. O autor escreveu a primeira versão de “O Bem-Amado”, contando a história do candidato a prefeito cuja principal promessa de campanha é a construção de um cemitério na cidade. Dias Gomes diz que se inspirou em Carlos Lacerda, o então poderoso governador da Guanabara, conspirador desde sempre e eterno candidato a presidente da República. Mas a peça não foi encenada. Sua estreia ocorreu somente em 1969, em Recife, em produção do Teatro de Amadores de Pernambuco. Em 1970, com Lacerda cassado e na oposição, o escritor reconheceu que a sátira não fazia mais sentido, e reescreveu a obra recriando o protagonista com o linguajar próprio que lhe deu notoriedade, com seus “os pratrasmente não interessam, vamos pensar nos prafrentemente”. Foi ao palco nesse ano no Rio de Janeiro, com direção de Gianni Ratto.
Em 1973, chegou à televisão, sendo a primeira telenovela brasileira em cores, e a primeira a ser exportada, alcançando 30 países. Em 178 capítulos, de janeiro a outubro, a novela bateu recordes de audiência, com Paulo Gracindo como Odorico e Lima Duarte fazendo Zeca Diabo, além das impagáveis irmãs Cajazeira vividas por Ida Gomes (Doroteia), Dirce Migliaccio (Judiceia) e Dorinha Duval (Dulcineia). Voltou em versão compacta em 1977, para substituir em cima da hora novela proibida pela censura. Ganhou nova versão em seriado, entre os anos de 1980 e 1984, em mais de 200 episódios, com Dias Gomes em grande forma recriando o panorama político e social do ocaso da ditadura no país. Em 2010, foi para as telonas, em filme dirigido por Guel Arraes, tendo Marco Nanini como o coronel Odorico. O inescrupuloso prefeito que constrói o cemitério, elefante branco na cidade carente, e que passa mais de um ano sem enterro. “Eu não preciso de solidariedade, preciso de um defunto”, vociferava Odorico. E fez de tudo para consegui-lo. Salve o atualíssimo Dias Gomes.

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI é professor de Literatura no Ensino Médio

Foto: Arquivo/Jornal de Jundiaí

Foto: Arquivo/Jornal de Jundiaí


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