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Fernando Bandini: Os jornais não contam

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI | 06/03/2019 | 07:30

“Histórias que os jornais não contam” é um livro do escritor e médico gaúcho Moacyr Scliar (1937/2011). Reúne 54 crônicas inspiradas em notícias de jornal. A mistura não é nova nem inédita, mas funciona muito bem nas mãos do habilidoso Scliar. Médico sanitarista, professor de Medicina e escritor consagrado, com uma vasta produção de cerca de 80 títulos, membro da Academia Brasileira de Letras desde 2003, Scliar recebeu em 2004 o convite de editores de um grande jornal paulistano para escrever histórias curtas a partir de notícias publicadas na imprensa. Desafio aceito, entre 2004 e 2008 publicou quinzenalmente no jornal suas crônicas, selecionadas e reunidas em volume único pela editora Agir em 2009, e republicadas no ano passado pela LPM. O resultado é um livro divertido e saboroso, dessas leituras leves que agradam e refrescam. Recheado de histórias insólitas, como a do cartão de Natal entregue nove décadas depois, ou a do cadáver que viajou na primeira classe de um voo intercontinental, passando pelas prosaicas, como a do casal que precisou de um aperto financeiro para se reencontrar, ou ainda a do sem-teto que ao deixar de dormir sobre um banco de praça achou uma fortuna, o escritor vai acrescentando à realidade doses de ficção, criando um material híbrido, muitas vezes lírico, e tantas outras, bem humorado. Não faltam sarcasmo e ironia em histórias em que se espera final edificante e o desfecho surpreende. Tem aquela de um chinês que botou a alma à venda em leilão pela internet; e a do inglês que anunciou também em leilão virtual a venda da sogra. Ou ainda a de prestigiosa publicação acadêmica que anuncia estudo concluindo que homens com fome preferem mulheres gordinhas. A do papagaio indiscreto que revelou a infidelidade de um dos cônjuges, ou a do rádio de carro que parecia ter vida própria. E tem aquela dos ladrões de joalheria que reconhecem de imediato um relógio fajuto anunciado como original. Ou a do chimpanzé pintor, cujas telas foram arrematadas por comprador dos Estados Unidos. O autor parte desse noticiário para reinventar e recontar a realidade. E, como ele mesmo diz na introdução do volume, para convidar o leitor a “ingressar no inesquecível território da imaginação”. Uma leitura descompromissada, mas não por isso menos estimulante ou prazerosa. Salve, Moacyr Scliar, escritor talentoso de quem voltaremos a falar.

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI é professor de Literatura no Ensino Médio

Foto: Arquivo/Jornal de Jundiaí

Foto: Arquivo/Jornal de Jundiaí


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