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Fernando Bandini: Os livros das letras de Vinícius

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI | 22/08/2018 | 04:55

O assunto é da alçada da querida amiga e colega Nathália Mondo, especialista no “Poetinha”. Mas arrisco invadir seara alheia para falar de um livro precioso, em que o jornalista José Castello se debruça sobre as letras do autor de “Garota de Ipanema”. “Livro das letras” é o título dessa joia a respeito do compositor Vinícius de Moraes. Fartamente ilustrado com fotos do poeta e de seus parceiros, acrescido das letras de canções em que contribuiu com sua verve aparentemente inesgotável, o livro mostra o compositor generoso, decisivo para fazer da música brasileira uma das mais respeitadas e aplaudidas mundo afora.

Castello já havia escrito “Vinícius de Moraes, o poeta da paixão”, a biografia definitiva do artista. No “Livro das letras”, mapeia sua vasta obra musical e não dá o trabalho por acabado, visto a quantidade de originais que o poeta dispersou e tantas vezes perdeu. O biógrafo conta que a guinada de Vinícius para a música pop se deu na década de 1950 quando da publicação de sua “Antologia Poética”. O poeta achou que, depois dessa obra por ele mesmo organizada, viriam repetições que não estava disposto a encarar. Partiu para uma nova área, da qual já havia participado esporadicamente, músico de oitiva que era.

Alguns críticos literários e amigos torceram o nariz para o que consideravam um desperdício de talento: o aclamado e reconhecido poeta ocupando-se de uma “coisa menor”. Mas deu-se exatamente o oposto: o genial e irrequieto Vinícius tornou ainda maior a canção popular brasileira. Não bastou para ele ser um dos vértices da santíssima trindade da Bossa Nova, junto com João Gilberto e Tom Jobim.

A curiosidade levou-o a uma variedade de ritmos, estilos e parcerias que pareciam não ter fim. Cada um dos quatro parceiros mais frequentes ganha capítulo exclusivo: Tom Jobim, Baden Powell, Carlos Lyra e Toquinho. Há outro que reúne as demais parcerias: Ary Barroso, Edu Lobo, Chico Buarque, Raimundo Fágner, Carlinhos Vergueiro, Francis Hime…

Vinícius dizia que parceiros musicais deveriam ser fiéis: “Parceria é que nem casamento. Só não rola sexo”, definiu o poeta, que fez da própria inconstância matéria-prima para a criação. Sob a lente do biógrafo, Vinícius era aquele que “inquietava os conservadores por sua ousadia, os moderados por sua coragem e os progressistas por seu apego à verdade acima do dogma”. A benção, Poetinha!

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI é professor de Literatura no Ensino Médio

Foto: Arquivo/Jornal de Jundiaí

Foto: Arquivo/Jornal de Jundiaí


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