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Fernando Bandini: Professor salva Prêmio Nobel

FERNANDO BANDINI | 08/04/2020 | 07:30

Albert Camus foi um dos grandes escritores do século 20. Faturou o Prêmio Nobel de Literatura em 1957 pelo conjunto da obra, formada por romances, contos, peças de teatro e ensaios. Reconhecido no mundo todo, teve a carreira interrompida de maneira brusca e prematura: morreu num acidente de carro, em 1960, aos 47 anos de idade.

Essa trajetória exuberante de um dos mais gabaritados intelectuais do século passado poderia nem ter existido se não fosse um professor da escola primária. Explico: Camus (pronuncia-se “camí”) nasceu na Argélia, em 1913, então território francês no continente africano. Os Camus eram da Alsácia, no leste da França, e emigraram em fins do século 19. A família pobre viu a situação se agravar quando Lucien, pai de Albert, morreu na Primeira Guerra Mundial.

A mãe, Cathérine, de ascendência espanhola, criou os filhos sozinha, trabalhando como operária. Quando o garoto completou o curso primário, aos 10 anos, decidiu-se que ele deveria trabalhar numa fábrica, a fim de ajudar no orçamento doméstico. Uma vida sacrificada, de expectativas reduzidas e pão incerto. Aí é que entra o tal professor, Louis Germain. Ele havia lecionado para a turma de Albert e achava o garoto brilhante, cujo talento intelectual seria desperdiçado.

Germain insistiu para que Cathérine procurasse uma escola para dar prosseguimento aos estudos de Albert. Contra a vontade de familiares, ela conseguiu uma bolsa integral para o filho num liceu da capital argelina. O aluno aplicado não decepcionou, e em 1931 ingressou na universidade.

Mas uma tuberculose abreviou seus sonhos, assim como suas atuações no futebol. Camus era goleiro nos tempos de estudante. Sem poder ingressar no serviço público, ele pretendia lecionar — por não passar nos exames médicos, Camus arriscou em alguns empregos temporários, como auxiliar de escritório e vendedor. Mas foi no jornalismo que encontrou sua vocação. Fundou com amigos um pequeno jornal em Argel.

Foi para a França em 1940, pouco antes da invasão nazista. Trabalhou em jornais e como leitor da editora Gallimard – que publicou posteriormente toda sua obra. Integrou a Resistência francesa contra a ocupação hitlerista. Seu primeiro romance, “O Estrangeiro”, é de 1942. Em 1947, sai seu romance mais conhecido, “A Peste”, e em 1948 estreia em Paris sua peça mais famosa, “Estado de sítio”, da qual falo no próximo artigo.

FERNANDO BANDINI é professor de Literatura do Ensino Médio


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