Opinião

Fernando Bandini: Sem rosto de mulher


"A guerra não tem rosto de mulher" é o título do livro da jornalista e escritora ucraniana Svetlana Aleksiévitch, prêmio Nobel de Literatura em 2015. Traz depoimentos de mulheres soviéticas que sobreviveram à Segunda Guerra Mundial (1939/1945), o maior conflito armado da história. Publicado em 1983, o livro chegou ao Brasil somente em 2016, na esteira do Nobel de sua autora. Por aqui, já tinha aparecido seu "Vozes de Tchernóbil", com depoimentos a respeito do maior desastre nuclear de todos os tempos, ocorrido em 1986, na então União Soviética. Em ambos os livros, a escritora mescla depoimentos e reflexões num estilo límpido e elegante de texto. Em "A guerra não tem rosto de mulher", a jornalista entrevista mulheres que enfrentaram a Segunda Grande Guerra como soldados regulares do Exército Vermelho ou como "partisans", os guerreiros sem uniforme que também resistiram à invasão nazista. A estimativa é de cerca de um milhão de mulheres tenham participado das atividades militares, um contingente fundamental para a vitória sobre o inimigo. Mas esse grupo gigantesco ficou sem voz ao longo das décadas seguintes. A história oficial pouco se lembrou dessas mulheres franco-atiradoras, sapadoras (desarmadoras de bombas e minas terrestres), fuzileiras, tanquistas, telefonistas, enfermeiras, médicas, cozinheiras... Algumas das atividades, por sinal, nem tinham o termo no feminino, como as tanquistas (soldados que acompanhavam tanques de guerra e retiravam os feridos dos campos de batalha). Elas ganharam medalhas, mas não foram ouvidas, até o trabalho de Svetlana. A jornalista enfrentou resistência e censura do governo (a União Soviética nunca foi uma democracia liberal), pois os relatos mostram não o "grande conflito", com seus heróis e vitórias épicas, mas o acinzentado da guerra, infestado de piolhos, fome, sangue, escassez, crueldade e matança em depoimentos contundentes de quem sacrificou seus melhores anos. Entrevistadas contam como envelheceram rapidamente: eram garotas de 15 ou 16 anos em 1941 e pareciam velhas em 1945. Muitas foram mal recebidas na volta, xingadas, acusadas de se prostituírem no front. Outras tantas voltaram para cidades devastadas, casas destruídas, famílias reduzidas a um ou dois sobreviventes. Mas contam também momentos de solidariedade e abnegação extremas. Um trabalho de fôlego, contraindicado para estômagos sensíveis. [RODAPE_OPINI] FERNANDO PELLEGRINI BANDINI é professor de Literatura no Ensino Médio [caption id="attachment_712" align="aligncenter" width="5520"]Foto: Arquivo/Jornal de Jundiaí Foto: Arquivo/Jornal de Jundiaí [/caption]

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