Jornal de Jundiaí | https://www.jj.com.br

Fernando Bandini: Sobreviveu graças a um dicionário

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI | 06/02/2019 | 07:30

Paulo Rónai foi um dos grandes nomes da cultura brasileira do século passado. Tradutor, professor, filólogo, ensaísta, crítico literário, esse húngaro naturalizado brasileiro aportou por aqui em março de 1941, fugido do nazismo que flagelava a Europa. Em seu livro “Como aprendi o português e outras aventuras” conta que foi salvo do extermínio graças a um dicionário de português comprado em Paris. Nascido em Budapeste, em 1907, cidadão do então Império Austro-Húngaro, Rónai sempre foi um estudioso de idiomas. Diz que desde criança queria saber como pronunciar as palavras em dez línguas impressas nas cédulas desse império da Europa Central, mosaico que reunia tantos povos (ucranianos, tchecos, eslovenos, croatas, sérvios, italianos…). Doutor em línguas neolatinas, falante do húngaro, o português foi a oitava língua que aprendeu, depois do francês, alemão, italiano, inglês, latim, grego clássico e espanhol. Durante período de estudos na França, entre 1929 e 1931, topou com o tal dicionário na vitrine de um sebo parisiense. Era uma edição de Portugal, e com ela o já tradutor do latim e francês comprou uma antologia de poesia de língua portuguesa. Gostou da sonoridade do que lia. Dada a pouca incidência de consoantes (pense na sopa de letrinhas sem vogais de certas línguas europeias), achava que o português era falado por crianças ou velhos (ou “falantes sem dentes”, como ele bem humorado definiu). Escreveu a uma livraria de São Paulo, que lhe mandou volume com poetas paulistas. Na embaixada brasileira em Budapeste conheceu o jornal carioca “Correio da Manhã”. Traduziu para o húngaro poetas brasileiros e mandou para o periódico, que publicou algumas das versões. Do Brasil, chegaram textos de escritores novatos, ávidos pela opinião do professor que de tão longe se interessava pela literatura brasileira.
Na Europa, o cerco do totalitarismo apertava e o continente mergulhava na guerra. Judeu, Rónai foi internado num campo de trabalhos forçados na Hungria ocupada. Fugiu para Portugal. Passou alguns meses em Lisboa — sem entender bem o que falavam os nativos — antes de conseguir o visto e embarcar para o Rio de Janeiro. Aos 33 anos de idade, Rónai via o Brasil como um recomeço. Quando desembarcou na Praça Mauá, entusiasmou-se por compreender o que diziam os brasileiros. Aquela era a língua que ele estudara e que lhe salvara a vida.

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI  é professor de Literatura no Ensino Médio

Foto: Arquivo/Jornal de Jundiaí

Foto: Arquivo/Jornal de Jundiaí


Link original: https://www.jj.com.br/opiniao/fernando-bandini-sobreviveu-gracas-a-um-dicionario/
Desenvolvido por CIJUN