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Flertando com Octávio Paz

Nathália Mondo | 19/02/2018 | 05:05

Fernanda Torres acabou de lançar seu terceiro livro, chamado “A glória e seu cortejo de horrores”. Enquanto, infelizmente, ainda não tenho a oportunidade de lê-lo, pois as redações se empilham em cima da mesa esperando uma correção, relembro aqui o primeiro livro que li dela: “Fim”.

O título dele faz jus a seu conteúdo, pois acompanhamos a vida de cinco amigos, todos moradores do Rio de Janeiro e exímios frequentadores das praias e noitadas da cidade. Vemos apenas seus últimos momentos, ou seja, culminamos nas suas cinco patéticas mortes.

Patéticas não porque foram ruins, muito pelo contrário, mas porque cada um teve exatamente aquilo que mereceu. Por isso o livro me fez pensar muito em Octávio Paz, pois, em um de seus ensaios, chamado “Todos os santos, dia de Finados”, o crítico alega que não há coisa pior para o ser humano do que ter uma morte não compatível com o estilo de vida que a pessoa levou, como um super-herói morrer de gripe, ou um pai de família morrer atropelado por um bêbado delinquente. A teoria do escritor foi muito bem utilizada por Fernanda Torres, pois cada um dos cinco amigos terminou de maneira previsível, ou pelo menos devida.

Obviamente não é só da morte que o livro trata, mas das atitudes anteriores das personagens que as levaram para tal. Sabemos como se conheceram, com quem se casaram e sobre suas famílias.

Os casamentos são abordados na maior amplitude possível: desde aquilo que se passa entre quatro paredes até o pedido, o que comem, quem acorda primeiro e quem odeia mais seu parceiro. Não há idealização, há apenas a visão crua do desgaste que um relacionamento de muitos anos pode causar em ambas as partes e nas pessoas envolvidas.

O livro é uma análise social, principalmente sobre a família brasileira constituída nas décadas de 60/70, regada a dramas, romantismo, drogas, sexo e os anseios intrínsecos ao ser humano.

Fiquei muito empolgada com a escrita leve de Fernanda Torres, que nos leva sem resistência à boca das personagens, pois aos cinco amigos é dado o poder de narrar, em primeira pessoa, suas principais memórias e o momento de suas mortes. Cada um tem seus jargões, sua velocidade e seu carisma diferente.

Se os personagens não fossem tão tristes e alguns tão cruéis, esse livro daria, facilmente, uma peça de teatro, regada a muita risada, ação, drama, cenas risíveis e muitas conversam de bar.

Gargalhei, quis chorar, quis socar a cara de alguns deles e vibrei com a morte de outros, mas também tive pena, ao mesmo tempo que compreendi, e odiei. Livro para todos os momentos. Para maiores de 16 anos.

NATHÁLIA MONDO é professora de Língua Portuguesa formada pela USP e leitora faminta de qualquer coisa


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