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Geraldo Gattolini: O folclore em Jundiaí – o Dia da Malvadeza

GERALDO GATTOLINI | 30/10/2018 | 07:30

Jundiaí já foi um grande centro folclórico. Quem nos afirmou isso foi Câmara Cascudo, o mais importante nome da literatura brasileira no campo dos estudos de nosso caboclo, cuja mestiçagem entre negros e portugueses nos trouxe um figura muito peculiar de nossa história.

Jundiaí, Campinas e Indaiatuba eram os únicos lugares onde se praticava todos os anos O Dia da Malvadeza. Consistia em roubar um objeto, uma enxada de estimação, um animal, uma carroça, qualquer coisa que o indivíduo pudesse ficar louco de raiva. Consta que certa vez deram ao pároco uma vaca que lhe proporcionava cinco litros de leite. Ele trazia pessoas para visitar a vaca, que ficava num cercado com um chafariz e um rancho onde ela podia descansar. Os malandros da cidade inventaram concurso para premiar as vacas.

Mais produtivas. Incentivaram o padre a inscrever a Tomásia – era assim o seu nome. O júri foi composto por um grupo de malvados, muito mal intencionado. No dia do concurso muita gente concorreu. Mas o resultado já era previsto. Ganhou Tomásia, a vaca do padre. Os fiéis foram tomados por grande alegria. Marcaram o dia da premiação. Não faltaram bolos, polenta frita, frango assado e foguetórios. A vaca voltou para o seu lugar. Os malvados incentivavam os fiéis a cumprimentarem o padre pela premiação. Alguns fiéis pagaram missa em louvor à Tomásia. Algumas pessoas disputavam o leite da vaca do padre. O bezerro também foi muito homenageado e valorizado. Pensaram em fazer um leilão, mas o padre disse não. Queria ficar com a mãe e o filho.

Mas o Dia da Malvadeza foi chegando. O padre contratou um ex-soldado conhecido na cidade por Tiro Certo, porque era ruim de pontaria, para vigiar mãe e filho. Deu-lhe ordens expressas. Toda vigilância era pouca. Quase ao cair da tarde chegou um emissário do Caxambu. Trazia um bilhete: “Venha logo para a extrema unção. Cumpadi Umberto estava nas úrtimas”.

Mais um vez o padre fez as mais agressivas recomendações a Tiro Certo. E foi embora. Foi a vez da turma da Malvadeza começar a agir. Embebedaram Tiro Certo e roubaram a vaca e o bezerro. No outro dia de manhã o padre chegou e foi direto ao quintal. E nada de vaca. Um dos troçadores sugeriu uma missa para a solução do problema. Ao transcorrer do dia o padre foi se chateando, recolheu-se aos seus aposentos e dizem que até chorou. Eis que às seis horas, com os sinos da igreja badalando freneticamente, as vacas e seu bezerro apareceram. Mais fogos e gritaria. Deste modo Jundiaí fez mais um Dia da Malvadeza.

GERALDO GATOLINI é jornalista e pesquisador. E-mail: gggattolini@gmail.com

ARTICULISTA GERALDO GATTOLINI JORNALISTA


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