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9 de Julho em maio

Glauco Gumerato | 26/05/2020 | 10:44

O município e o estado de São Paulo anteciparam alguns feriados. O pandêmico coronavírus impõe medidas de caráter “ex parte principis” rigorosamente necessárias. Goste-se ou não das medidas ou dos governantes que as tomam. Na semana passada a Assembleia Legislativa aprovou projeto de lei, de inciativa do Governador, antecipando o feriado de 9 de Julho para ontem, segunda.

O feriado decorrente dessa Data Magna do calendário paulista, neste 2020 foi em maio, mês igualmente relevante no contexto da Revolução Constitucionalista de 32. Foi em 23 de maio de 1932 que foram mortos os jovens Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo (M.M.D.C). Foram abatidos por simpatizantes do Partido Popular Paulista, agremiação caudatária da ditadura Vargas. A data passou para a história de São Paulo como o Dia do Soldado Constitucionalista.  Meu nonno Ernani Gumerato foi combatente em 32 e ficou entrincheirado em Cunha, no Vale do Paraíba. Por isso, 23 de maio e 9 de julho são datas de especial relevo ao tronco materno de minha família.

Também foi neste maio, dia 22, que se tornou público o vídeo da reunião entre o Presidente da República e seus Ministros ocorrida em abril, dois dias antes da saída de Sérgio Moro do governo. Assisti-o integralmente no próprio dia 22, na exibição que dele fez a CNN a partir das 23h. Coisas ali me chamaram a atenção. O vídeo é impróprio para crianças, por exemplo.

A quantidade dos palavrões gritados por Bolsonaro impressionou mais do que sua conhecida verve egocêntrica-autoritária. Paulo Guedes, que tomou a palavra mais de uma vez, numa de suas intervenções imitou o chefe e repetiu um certo palavrão em explicação que dava à ministra Damaris. Esta, quando falou, fez o seu conhecido “mise en scene” de carola. Em sua fala, o presidente da CEF mostrou-se um bolsonarista de carteirinha e fez questão da afagar seu ídolo com palavras de ordem. Wientraub sugeriu prender a banda podre de Brasília, a começar pelos ministros do STF. Ricardo Salles, do meio ambiente, sugeriu fossem aprovadas medidas administrativas de flexibilização de regras ambientais despistando a imprensa, centrada no coronavírus.

Especificamente sobre o combate à covid-19, ouviu-se apenas as parcas palavras do ex-ministro da saúde Nelson Teich que, pobre homem, ingressara no governo dias antes e ali participava de sua primeira reunião.  Mourão pareceu-me constrangido com o palavreado do presidente. Moro mostrava-se introvertido. Passou quase toda a reunião de braços cruzados, como que sentindo desconforto por lá estar. Deixou a reunião antes de seu final.

A coisa não parou por aí. Na tarde desse mesmo 22 de maio veio Augusto Heleno numa rede social e externou ameaça velada ao STF, caso fosse apreendido o celular de Bolsonaro para as investigações que apuram eventual “mão de gato” de sua parte junto ao comando da Polícia Federal.

As trapalhadas que estamos a vivenciar reforçarão a inesquecibilidade deste 9 de Julho em maio de 2020.

GLAUCO GUMERATO RAMOS é advogado, professor da Fadipa, presidente para o Brasil do IPDP e diretor de Relações Internacionais da ABDPro.


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