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Glauco Gumerato: 9 de julho, Revolução de 1932, etc

GLAUCO GUMERATO RAMOS | 10/07/2018 | 05:00

A data de 9 de julho sempre foi destaque em minha família. A Revolução de 32 era assunto com certa recorrência. Eu, como o neto mais velho, tive a chance de conviver por mais tempo com um ex-combatente, meu nonno, Ernani Gumerato. Ouvi dele alguns relatos da Revolução. Não todos, claro. Não é conveniente que certos aspectos de um drama sejam contados a uma criança de 13 anos, idade que eu tinha quando ele se foi, em maio de 1985. Também me lembro do sistemático desprezo pela figura de Getúlio Vargas. Talvez não fosse para menos.

Fazia poucos dias que Ernani completara 19 anos quando fuzilaram os moços M.M.D.C. na noite de 23 de maio de 1932. Os tiros partiram de milicianos ligados ao Partido Popular Populista (PPP), que dava apoio ao regime ditatorial varguista. Foi a gota d’água para a Revolução que se iniciou em 9 de julho.

Vivendo com a família em Ribeirão Preto, na sequência daqueles acontecimentos, Ernani resolveu ir para São Paulo para alistar-se como voluntário. Por lá já vivia seu irmão mais velho, Hércules Gumerato, que anos mais tarde voltaria à cidade natal para ser o maestro-regente da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto, de 1970 a 1976. Alistaram-se ambos como voluntários nas fileiras paulistas.

Ernani integrou as tropas do chamado “Setor Norte”, no Vale do Paraíba. A ideia de então era descer a serra, tomar Resende e a partir daí chegar ao Rio de Janeiro para o cerco e deposição de Getúlio. Todos sabemos que nada disso aconteceu. Após quase noventa dias de batalha São Paulo sucumbiu.

Àquela altura, Ernani seguia entrincheirado na cidade de Cunha com outros soldados do batalhão a que pertencia. Não eram muitos. Num determinado momento foram encurralados e postos em forma pelas tropas federais, então já vitoriosas. Alguns minutos depois, certamente em ato de zombaria, algum dos federais começou a provocar os moços paulistas, mandando-lhes dar vivas e saudar Getúlio Vargas.

Não mais podendo aceitar aquele desaforo, Ernani salta à frente do próprio pelotão, empunha o fuzil e afirma em voz alta: “Quem der vivas a Getúlio morre”! Reza a lenda que a atitude lhe custou quase seis meses de detenção no Rio de Janeiro. Por algum tempo após o fim da Revolução, foi tido por desaparecido pela sua família em Ribeirão.

ARTICULISTA GLAUCO GUMETATO RAMOS  ADVOGADOTornou-se funcionário público federal perante o Correio, tendo feito sua carreira aqui por Jundiaí. Quando criada a Justiça do Trabalho em meados dos anos 40, seu conterrâneo, compadre e colega de Correios, Rubens Noronha de Mello, lhe chamou para juntos irem trabalhar por lá.
Bastaria uma simples opção do servidor federal para poder migrar para a recém criada Justiça Trabalhista. Rubens foi e se aposentou como juiz do trabalho. Ernani recusou-se, já que o novo órgão havia sido criado por Getúlio Vargas. Aposentou-se como servidor dos Correios.

Confesso que nunca ouvi de sua boca a história da passagem, para mim heroica, nas trincheiras de Cunha. Ouvi de minha nonna e ainda ouço de meus tios, irmãos de minha mãe. Gostaria de ter tido tempo de lhe perguntar mais sobre 9 de Julho e sobre a Revolução de 32. Que a data seja sempre lembrada por nós paulistas.

GLAUCO GUMERATO RAMOS é advogado em Jundiaí, presidente para o Brasil do IPDP e diretor de Relações Internacionais da ABDPro


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