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Glauco Gumerato: Histeria mística instalada

GLAUCO GUMERATO RAMOS | 08/01/2019 | 07:30

Está sendo cansativo vivenciar o atual fenômeno social que capturou as pessoas aqui no Brasil. Trata-se de uma espécie de “histeria mítica instalada”. Baseada numa falsa percepção do que é e para que serve a ideologia, pessoas dos mais diferentes níveis sociais e intelectuais vêm se expondo negativamente, ao meu sentir. Revelam um certo descontrole emocional em nome de valores que entendem coincidir com a própria “ideologia”. E aqui a ideologia vem “entre parênteses” porque, basta observar, os bravateiros de plantão não conseguem exprimir em palavras os conceitos básicos do que vem a ser a tal ideologia pela qual levantam bandeiras e vociferam uns contra os outros. Três minutos de viagem nas redes sociais revelam o fenômeno.
A situação é tão estapafúrdia que é possível observar, sem auxílio de lente de aumento, que esse fenômeno social vem se alastrando epidemicamente. É um fenômeno bilateral, que lança teias por sobre os partidários das mais diversas “ideologias”, outra vez “entre parênteses”. Não atinge apenas os gregos ou os troianos. Por isso é tão cansativo observá-lo, já que sua toxidade provoca uma espécie de letargia social.
Mas do que se trata essa tal “histeria mítica instalada”?
Provavelmente sem saber sobre o que se fala, tornou-se voz corrente entre o “senso comum” empoeirado na superfície da mediocridade, referir-se ao presidente recém empossado como sendo um “mito”. Sempre que se multiplicam as visões ou as distorções sobre um “mito”, ao redor dessa percepção forma-se uma “mítica” que a ele se relaciona. Quando se chama algo ou alguém de “mito”, deve-se ter presente que a ideia a partir daí representada é algo rigorosamente inexistente! Lembremos que por definição um “mito” é um enredo não-verdadeiro. Uma mentira, portanto. Nas primeiras dez linhas de qualquer livro sobre mitologia clássica greco-romana, ou, por exemplo, da mitologia extraída do folclore brasileiro difundido por Câmara Cascudo, já se sabe que tudo o que ali está narrado simplesmente não existe. A não ser, é claro, que algum sonhador desavisado creia que realmente tenha existido Pandora e sua caixa, ou a Guerra de Tróia, ou o Minotauro, ou os Centauros, ou a mula sem-cabeça, ou o Saci Pererê, ou a loira do banheiro, entre tantos outros enredos míticos que permeiam a nossa cultura. Apesar disso, todos sabemos que não passam de relatos contados e recontados sobre uma inexistente realidade. Um “mito”, repita-se, é uma mentira!
Sempre que uma mentira toma ares de verdade, corre-se o risco de que a “mítica” daí gerada faça “instalar uma histeria” coletivizada, que de resto é o resultado da tensão entre a ordem mítica que nos aprisiona e a ordem racional que nos preside ou deveria presidir. Esse fenômeno cultural nos impede de identificar e diferenciar “qual é o rosto do mundo e qual é a sua máscara”, para ficarmos com a alegoria de Leszek Kolakowski (“A presença do mito”). Em suma: é a noção da realidade que nos foge da visão.
Lamentavelmente vivemos, sim, uma “histeria mítica instalada”. Ela é bilateral e está afetando a tudo e a todos. Por isso não nos esqueçamos: um “mito” é uma mentira!

GLAUCO GUMERATO RAMOS, é advogado em Jundiaí, presidente para o Brasil do IPDP e diretor de Relações Internacionais da ABDPro

ARTICULISTA GLAUCO GUMERATO RAMOS ADVOGADO


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