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Glauco Gumerato: Meus dois recentes choros

GLAUCO GUMERATO RAMOS | 19/02/2019 | 07:30

Na semana passada dois fatos me fizeram chorar como cidadão. O primeiro foi choro com lágrimas, choro de emoção, choro de repentina tristeza. O outro foi um choro tão doído quanto o primeiro, mas sem lágrimas, um “choro interno”. O primeiro motivado pelo desastre que calou Ricardo Boechat. O segundo motivado pelo excesso policialesco decorrente do ato judicial proveniente da 10ª Vara Federal de Brasília, que determinou a quebra do sigilo bancário do escritório de advocacia “Mariz de Oliveira”. Este escritório recentemente desincumbiu-se da defesa criminal do então presidente Michel Temer, no caso envolvendo as alegadas irregularidades cometidas pelo Grupo J&F e pelo empresário Joesley Batista. Começo pelo meu segundo choro.
O titular do respectivo escritório é um dos advogados criminais de maior projeção da história de nossa República. Trata-se de Antônio Cláudio Mariz de Oliveira que, por sinal, tem estreitas relações aqui com Jundiaí. Mariz é colega de turma de Ulisses Nutti Moreira, outro gigante da advocacia, porém, na área trabalhista. Ambos cursaram a Faculdade de Direito da PUC/SP na segunda metade da década de sessenta. Em reuniões festivas na casa de Ulisses, em mais de uma oportunidade pude estar com Mariz de Oliveira pessoalmente, onde inclusive falamos de seu pai, Waldemar Mariz de Oliveira Júnior, que fora Desembargador no Tribunal de Justiça de São Paulo e grande professor processualista, também na PUC. Ainda que nenhuma dessas conexões houvesse, ainda que não se tratasse de um advogado respeitável, ainda assim eu acusaria de abusiva a quebra do sigilo bancário de seu escritório. A Lei Federal que rege o exercício da Advocacia no Brasil estabelece como direito do Advogado a “inviolabilidade de seu escritório ou local de trabalho, bem como de seus instrumentos de trabalho, de sua correspondência escrita, eletrônica, telefônica e telemática, desde que relativas ao exercício da advocacia”. A legislação confere certos direitos aos advogados não para “privilegiá-los”, mas para viabilizar que eles possam exercer ampla defesa constitucionalmente garantida em favor dos que se veem submetidos a um processo judicial. Lamentavelmente alguns setores do Judiciário têm exagerado alguns de seus procedimentos, decretando medidas arbitrárias fora dos limites legais. Como cidadão não tenho dúvida de que o pior dos abusos do Estado ocorre quando vindo do Poder Judiciário, que existe para ser o guardião das garantias de cada um de nós. É triste que aqueles que nos julgam esquecem de qual é o seu efetivo papel.
Já o primeiro dos choros foi por Boechat. Chorei pelo contexto trágico que retirou a vida de uma pessoa de bem. Mesmo que não se concordasse com tudo o que por ele era dito, não se pode negar que predicava um discurso humano. A popularização que o rádio lhe deu tornou-o uma pessoa de nosso cotidiano, quase que um amigo de todas as manhãs. De tão querido que era, acabou fazendo muitos chorar. Eu também chorei.

ARTICULISTA GLAUCO GUMERATO RAMOS ADVOGADO


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