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Glauco Gumerato: ‘Preciso dizer!…’

GLAUCO GUMERATO RAMOS | 30/10/2018 | 07:30

Há 120 anos publicou-se num jornal parisiense uma carta aberta endereçada ao então Presidente da França, Félix Faure, escrita por Émile Zola. Foi em 13 de janeiro de 1898. A impactante manchete saltou do papel para a história: “J´accuse!…” (=Acuso!…). Zola denunciava ao país os aspectos de um processo mentiroso, fraudulento quanto às provas, secreto quanto ao seu procedimento. Concluído em dezembro de 1894, o processo gerou a condenação do capitão do exército francês Alfred Dreyfus. Acusavam-no de espionagem em favor da Alemanha com base numa carta encontrada na respectiva embaixada, na França. Oficial da artilharia, Dreyfus foi condenado em razão de sua origem judaica, numa demonstração de perseguição e preconceito antissemita.

O caso Dreyfus dividiu a sociedade francesa nos últimos anos do século 19. No final de 1897, surgiram novas evidências favoráveis ao capitão judaico-francês. Mesmo diante delas, aquela fraude processual não foi revista pelas autoridades militares que o condenaram. Alfred Dreyfus seguiu condenado. Daí o motivo do protesto público de Émile Zola por meio de seu “J´accuse!…”. Processado, Zola foi atingido em sua liberdade, tendo sido exilado na Inglaterra. Já de volta a Paris, em setembro de 1902, foi encontrado morto onde morava, asfixiado, sob circunstâncias até hoje não esclarecidas. Suspeita-se que fora assassinado. Em junho de 1908, suas cinzas foram trasladadas do cemitério de Montmartre ao mausoléu do Panthéon de Paris. Dois anos antes, a condenação de Dreyfus havia sido revista, onde lhe reabilitaram os direitos.

No início de 1895, quando foi executada a pena de desonra militar, o nosso Rui Barbosa estava em Londres. De lá relatou o que foi noticiado na imprensa inglesa e francesa em relação à cerimônia pública. Colegas militares arrancavam da farda de Dreyfus as suas insígnias de oficial. Cuspiram-lhe na cara, relatou Rui. Um escárnio público, noticiado como um linchamento moral e degradante. Inspirado nessa história, “Preciso dizer!” a Vossa Excelência, Senhor Presidente recém-eleito, o seguinte:

“Preciso dizer” que não votei em Vossa Excelência. Não me agrada a forma e o conteúdo geral de seu posicionamento político. Sem embargo, “Preciso dizer” que o tom liberal e descentralizador de seu primeiro discurso após eleito chamou-me positivamente a atenção. Realmente acredito que é da liberdade econômica de onde vem a melhora social de todos, em especial dos que menos têm.

“Preciso dizer” que o Brasil é uma República, onde todos os brasileiros gozam da mesma proteção diante da Constituição. “Preciso dizer” que o Vosso compromisso deve ser o compromisso democrático-republicano, que não se compadece com investidas autoritárias por parte de qualquer dos Poderes constituídos. “Preciso dizer” que espero que o seu governo concretize as promessas positivas que foram aceitas por aqueles que lhe confiaram o voto. “Preciso dizer” que começarei o próximo ano torcendo pelo sucesso constitucional, social e econômico de seu mandato como presidente do Brasil. Mãos à obra!

GLAUCO GUMERATO RAMOS é advogado em Jundiaí, presidente para o Brasil do IPDP e diretor de Relações Internacionais da ABDPro

ARTICULISTA GLAUCO GUMERATO RAMOS ADVOGADO


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