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Glauco Gumerato: Presas fáceis da pós-verdade

GLAUCO GUMERATO RAMOS | 16/04/2019 | 07:30

Chama-se pós-verdade a narrativa distorcida dos fatos, em especial os de implicação política. Trata-se de estratégia que pode avançar de duas formas. Ou se cria uma versão fática sobre fatos inexistentes, ou se extrai uma versão fática diversa daquela ocorrida a partir de um fato. Em ambas as situações trafega-se fora dos quadrantes da verdade. Assim entendida, a pós-verdade é a não-verdade, a inverdade, a mentira. É a desconstrução da verdade dos fatos, naturalmente com o objetivo estratégico de aprisionar a nossa atenção diante de nossa própria desatenção. Para clarear a compreensão, os fatos gerados pela estratégia da pós-verdade é o que modernamente chamamos e conhecemos por Fake News, que em bom português significa notícias falsas. Todos os dias vemos uma infinidade delas pululando nas redes sociais. Na informalidade desses ambientes virtuais, fala-se, escreve-se e reproduzem-se as mais desbragadas tolices a partir de notícias falsas. Vê-se um avassalador avanço de temas a serviço da pós-verdade e da estratégia de dominação mental articulada pelos seus mentores. Donald Trump é um conhecido divulgador de pós-verdades, e vem fazendo escola entre novatos líderes populistas democraticamente eleitos, como aqui no Brasil, por exemplo. Portanto, trata-se de estratégia de dominação que vem se mostrando lastimavelmente exitosa. Tipo de narrativa fática que apela ao lado mais irracional de nossa compreensão sobre as coisas, a pós-verdade faz com que as pessoas se tornem presas fáceis diante de suas garras afiadas. Colabora com essa realidade de coisas o “espírito de torcida”que, muitas vezes, suprime a razão que nos permite enxergar criticamente o mundo ao nosso redor.
Mas afinal de contas, por que se dá espaço para que a pós-verdade se imponha como verdade? Por que se crê e se difundi certas narrativas que não ficariam em pé diante de trinta segundos de racionalidade? Por que a pós-verdade encontra nas redes sociais a terra lavrada de que precisa para germinar? Começarei respondendo a esta última indagação.
As redes sociais abriram espaço para uma infinita liberdade de expressão, antes nunca vista. Fala-se, escreve-se e reproduzem-se as coisas mais impactantes que se possa imaginar, positiva ou negativamente, pouco importa. Expressa-se sobre tudo e para todos os lados pelos canais virtuais da web. As redes sociais, não há dúvida, mostram-se um terreno fértil às estratégias da pós-verdade. A aparente sensação de que por ali se pode bradar aquilo que se queira sem que haja confronto de ideias, certamente encoraja as pessoas à livre manifestação. Se bem pensadas as coisas, o que se lança ao vento numa rede social, nem sempre o seria feito nas relações cotidianas da vida entre as pessoas, no olho-no-olho, no tête-à-tête. Ainda bem! Quanto ao espaço por onde vem se impondo a pós-verdade, ele só existe por dois motivos: 1) má-fé dos que compartilham mentiras, e 2) falta de reflexão sobre o lixo eletrônico recebido. Em ambos os casos são as presas fáceis a serviço da pós-verdade.

GLAUCO GUMERATO RAMOS é Advogado. Professor da FADIPA. Presidente para o Brasil do IPDP. Diretor de Relações Internacionais da ABDPro.

ARTICULISTA GLAUCO GUMERATO RAMOS ADVOGADO


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