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Glauco Gumerato Ramos: O cão do mercado de Osasco

Glauco Gumerato Ramos | 11/12/2018 | 07:30

Adianto: o que eu soube do incidente foi a partir daquilo que viralizou na web. Não estou aqui para recriminar o mercado francês, seus gestores ou mesmo os seus empregados que praticaram o ato desumano – sim, desumano! – de agredir até a morte um ser vivo que, não à toa, é tido como o melhor amigo do homem. Prefiro observar e refletir sobre o fato na perspectiva do atributo “humanidade” que nos caracteriza como espécie animal. Também adianto que descarto o argumento daqueles que afirmam que é uma preocupação desmedida com um animal, quando há vários seres humanos que são tratados com absoluto descaso. Apesar de verdadeiro, o argumento não é válido para o enfrentamento da questão.
Se há algo que nos identifica em quanto espécie é a dimensão subjetiva dos sentimentos que habitam nosso ser. Amor, misericórdia, piedade, compaixão, amizade, saudade, vaidade, desejo – inclusive sexual –, medo, raiva, vingança, dentre outros, são sentimentos demasiadamente humanos. São externados ou reprimidos a partir de vários fatores, inclusive de nossas particulares estratégias pessoais de convivência.
Mas há limites inconscientes que o senso de humanidade que nos rege impede que ultrapassemos. Funcionam como uma espécie de “freio inibitório” que imperativamente são acionados em momentos de tensão, desviando-nos da rota de certas transgressões. Ainda que a educação formal que nos é ministrada nos ajude a divisarmos as condutas que podemos, ou não, praticar, o fato é que a “humanidade” que carregamos conosco intuitivamente nos contém, bloqueando-nos à prática de certas irracionalidades. Parece-me que isso é assim até mesmo para a preservação da integridade física e pessoal nossa e de nossos semelhantes.
Se subtrairmos da cena do mercado de Osasco aquele cãozinho, e ali introduzirmos um ser humano humilde, um morador de rua, por exemplo, será que a atitude dos canicidas seria igual? Será que tratariam a vida com o mesmo desprezo ali demostrado? Será que se resolveria o “problema” extirpando-se a vida do apontado “problema”? Com base na “humanidade” que me rege intuo que as respostas seriam negativas. Não creio que em situação assemelhada a vida humana seria ultrajada, como foi a do infeliz animal.
Sabemos que lá em Osasco o evento morte não foi decorrente, por exemplo, de um ato humano de defesa contra uma fera irracional de quatro patas. Não foi isso o que aconteceu. Mas então por que um ser humano é capaz de, deliberadamente, impor espancamento, sofrimento e morte a um cachorro que mal nenhum lhe acarreta?
Confesso que não consigo alcançar uma resposta convincente a esse problema. Mas de uma coisa não tenho dúvida: o caso do cão do mercado de Osasco retrata um ato desumano, já que a “humanidade” que nos caracteriza não leva mais do que um segundo para reprová-lo.

Glauco Gumerato Ramos é advogado. Presidente para o Brasil do IPDP. Diretor de Relações Internacionais da ABDPro.

ARTICULISTA GLAUCO GUMERATO RAMOS ADVOGADO


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