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Glauco Gumerato Ramos: O despresidente

GLAUCO GUMERATO RAMOS | 28/04/2020 | 05:15

Um antipresidente é aquele que pratica atos contrários à elevada e complexa função de presidir. Sobre ele, escrevi em minha última intervenção neste JJ. Não tardou a surgir uma nova figura no cenário nacional: o despresidente. Se o prefixo grego “anti” sugere uma ação contrária, o latino “des” acrescido numa palavra leva à ideia de negação, de separação. Portanto, um despresidente é aquele que presidente não é, já que o “des” o separa do presidente.

Ao confrontar Sergio Moro, o presidente voltou a se complicar politicamente. Alguns segundos de observação revelam os perfis dos eleitores de Bolsonaro. São eles: antilulistas históricos, antilulistas assim transformados por arrependimento no voto de outrora, que elegeu Lula e outros petistas, lava-jatistas simpatizantes do ex-juiz Moro e de seus métodos inquisitivos de combate à corrupção, sedizentes direitistas esperançosos por alguma alteração na política econômica, cultural e social do país, ultradireitistas radicalmente vocacionados a sujeitarem-se ao cabresto autoritário, integrantes de setores religiosos que pretendem ver concretizada a moral característica do grupo a que pertencem e parcela de eleitores do Estado do Rio de Janeiro que tradicionalmente ajudou a eleger Jair Bolsonaro e filhos ao parlamento. Seja como for, milhões de brasileiros inebriados por Moro inclinaram-se a Bolsonaro.

Ao gritar “truco” para o presidente, após a demissão do diretor-geral da Polícia Federal, Sergio Moro saiu do cargo de ministro para se lançar como pré-candidato “heroico” à presidência do país. Não é para menos. Em pouquíssimo tempo, o “torquemada” lava-jatista saltou de servidor do judiciário para o olimpo das celebridades mundiais. No Brasil, o ex-juiz alcançou um nível de prestígio político perante a população que lhe pôs na manga o “casal maior”, permitindo-lhe a cartada que deu. Sem se despir do “bom-mocismo” com que sempre se apresentou, Moro deu mais um passo determinante rumo ao seu futuro político.

Apesar de sempre ter agido politicamente enquanto esteve à frente da Lava Jato, Sergio Moro definitivamente encontrou o seu lugar: a cena política. E notem: tanto lá como cá não está medindo esforços para chamar a atenção sobre si. Tudo leva a crer que está sendo bem-sucedido em sua “heroica” empreitada.

Bolsonaro aniquilou Mandetta, que subia em popularidade. Apresentou uma espécie de “PAC”, em total oposição à política econômica defendida por Paulo Guedes. Flertou com o autogolpe discursando ao populacho que há poucos dias, em Brasília, pedia intervenção militar, volta do “AI-5” e outras sandices. Perde apoio de sua base no Congresso. Perdeu o de Moro. Está se aliançando com o “centrão”. Agoniza politicamente.

Bolsonaro ainda tem mandato, claro, mas na prática está separado de sua função. Criou a receita do despresidente.

GLAUCO GUMERATO RAMOS é advogado, professor da Fadipa, presidente para o Brasil do IPDP e diretor de Relações Internacionais da ABDPro.


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