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Glauco Gumerato Ramos: P-17 (24/mar/1947 – 18/jun/2019)

Glauco Gumerato Ramos | 25/06/2019 | 07:30

P-17 foi o nome de “batismo” de uma pequena embarcação construída no quintal da casa de meus nonos, Ernani e Vitória. “P” era a inicial do nome do intuitivo “engenheiro” construtor do barco. “17” era a idade que aquele adolescente autodidata tinha quando o construiu. Foi assim que meu tio Péricles Ferracini Gumerato criou e viu deslizando sobre a água seu primeiro barco.

Depois do P-17 vieram outros. No fim dos anos setenta, e já habilitado como “mestre-amador”, tio Péricles adquiriu o Picelli na marina de São Sebastião. Era um veleiro robusto. O casco era roxo escuro, ao estilo de uma brilhante berinjela. Se não houvesse vento, o potente motor Volvo o impulsionava. O Picelli chegou sobre caminhão à represa de Chavantes, direto para o rancho de meu tio na cidade de Ribeirão Claro, no Paraná, às margens da represa. Velejou por aquelas águas até ser vendido há menos de uma década.

Meu tio viveu o auge da juventude entre os anos sessenta e setenta. Foi jovem no período da contracultura de então. Acompanhado de meu tio Hernani, seu irmão, dois anos mais velho, num feriado pelo dia da Padroeira de Jundiaí seguiram ambos para uma aventura inusitada. Era agosto de 1969.

Naquele ano o feriado do dia 15 caiu numa sexta-feira. Sem que ninguém soubesse, e sabe-se lá como conseguiram se planejar, fizeram uma espécie de “bate-e-volta” de menos de uma semana para Nova York e de lá seguiram para o interior do Estado, rumo a uma cidadela chamada Bethel. Entre 15 e 17 de agosto de 69 ocorreu alio lendário Festival de Woodstock. Chegaram na manhã do sábado, dia 16. Embaixo de chuva assistiram Santana, Janis Joplin, Creedence, Joe Cocker, Hendrix. A aventura só foi revelada à família semanas depois.

Tio Péricles tinha compleição física vitruviana. Era o maior entre os irmãos e naturalmente maior que minha mãe, Maria Leopoldina, a única irmã. Herdara o tipo físico de seus tios maternos, Mário e Écio Ferracini. Quando éramos criança, eu, minha prima Ana Letícia e minha irmã Tatiana víamos nele a figura de um herói. Lembro-me das festas de final de ano na casa da Nonna quando nós três, ainda bem miúdos, ficávamos esperando a chegada dos tios Péricles e Maria Vera Pompermayer Gumerato. Vinham de Pompéia, perto de Marília, onde viviam em razão de seu trabalho junto a nipo-brasileira Jacto Implementos Agrícolas. Ano após ano eles chegavam sobre a moto BMW R60, preta, fabricada em 1969 e adquirida por ele em 1972. Meu tio jamais se desfez de sua motocicleta alemã.

Tio Péricles tinha vários amigos aqui em Jundiaí, da sua época de jovem. Sei que alguns deles me leem neste momento. Por mais de uma vez ouvi esses amigos enaltecendo um atributo pessoal que o marcava: a inteligência! Eles tinham razão. Vivi intensamente com meu tio e com ele aprendi. Sou grato por isso.

GLAUCO GUMERATO RAMOS, Advogado. Professor da FADIPA. Presidente para o Brasil do IPDP. Diretor de Relações Internacionais da ABDPro.


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