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Glauco Ramos: Levante de Varsóvia

GLAUCO GUMERATO RAMOS | 04/08/2018 | 05:30

Em todo 1º de agosto comemora-se uma data emblemática no plano da resistência ao autoritarismo: o Levante de Varsóvia (Powstanie warszawskie). Teve início às 17h do dia 1º de agosto de 1944, na bela capital polonesa. Pouco mais de um ano antes, em 19 de abril de 1943, na noite do domingo da Páscoa judaica, por lá também ocorreu uma batalha de resistência quase homônima, o chamado Levante do Gueto de Varsóvia. O filme “O Pianista” retrata um pouco do que ali se passou. Ainda que essencialmente ambos sejam atos de resistência, os levantes não se confundem.

O de Varsóvia foi a resistência polaca contra a ofensiva das tropas nazistas que ocupavam a cidade. A ideia era resistir por apenas alguns poucos dias até que o exército soviético chegasse à capital em auxílio dos poloneses. Chegariam para assumir o controle da cidade por intermédio do Comitê de Libertação Nacional Soviético-Polaco. Fato é que os resistentes poloneses pretendiam retomar o poder sobre a capital antes mesmo que isso viesse a ser feito pelo Comitê de Libertação, o que seguiria afetando a soberania deles.

A insurreição de 1º de agosto teve início quando o exército soviético marchava em direção a Varsóvia. Os polacos se valeriam da chegada desse potencial bélico na revolta contra os nazistas. Um mês depois os soviéticos já haviam conquistado algumas áreas da cidade, então sob o jugo alemão. Apesar da proximidade territorial com as forças do Levante, o Exército Vermelho ficou acampado para além do lado de lá das margens do rio Vístula, deixando os insurgentes à própria sorte.

Sessenta e três dias após o seu início, o Levante foi definitivamente sufocado pelos nazistas e, em 2 de outubro, veio a rendição diante dos alemães. Na sequência, os militares da Alemanha nazista destruíram mais de um terço da cidade de Varsóvia.
Essa atitude dos soviéticos gerou a suspeita histórica, ratificada ao longo do tempo, de que o abandono teria sido um ato proposital. Acusou-se Josef Stalin de aguardar a derrocada dos revoltosos para posteriormente invadir e ocupar a Polônia. A suspeita não era para menos. Em 1939, Stalin e Hitler aliaram-se para invadir e dividir o país de origem de Karol Wojtila, outro nome que remete à resistência contra as forças internacionais autoritárias do século 20.

Em memória ao que significou para a Polônia o Levante de Varsóvia, em todo 1º de agosto, exatamente às 17h, a cidade se aquieta por alguns minutos para escutar as várias sirenes de guerra que projetam a lembrança ao mesmo dia e hora onde lá atrás, em 1944, teve início o Levante contra as forças autoritárias que atormentavam a Europa durante a Segunda Guerra Mundial.

Pouco depois do meio-dia do 1º de agosto da semana passada, recebi um vídeo de meu irmão Fernando com imagens do Mateusz e da Pola, meus sobrinhos polaco-brasileiros. Ao fundo uma Varsóvia silenciada sob as sirenes que evocavam o Levante. Era para me saudar. Fui eu quem lhes saudei.

GLAUCO GUMERATO RAMOS é advogado em Jundiaí, presidente para o Brasil do IPDP e diretor de Relações Internacionais da ABDPro

ARTICULISTA GLAUCO GUMERATO RAMOS ADVOGADO


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