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GUARACI ALVARENGA: Caprichos de um folião

GUARACI ALVARENGA | 15/02/2019 | 07:30

Sempre foi um divertido carnavalesco este saudoso folião. A bem da verdade, os tempos eram outros, como outros eram os Carnavais. O sistema bancário não tinha a alta tecnologia dos dias atuais em que as informações são prestadas em tempo presente. O cheque era respeitado e valia como moeda corrente. Deixar de “brincar” o Carnaval nunca lhe passou pela cabeça. Adorava se fantasiar. Muitas vezes confundia seus trajes com os da vida real. A sua veste preferida: o malandro sofisticado. O pisante de branco, sem meia. A calça de linho claro, a solta camisa listrada e o pequeno chapéu coco, cobrindo a testa. Persistia, todavia, uma constante situação contra a sua alegria e exageros, o “danado” do dinheiro sempre em crise, faltava com seu bolso. Malandro que é malandro não estrila, diz o velho conceito do morro. Mais uma vez não se perturbou. Não passaria o Carnaval na dureza. Com a velha malícia, pensou numa solução. Na sexta feira, início dos festejos carnavalescos, levantou-se por volta do meio-dia. Primeiro foi pegar o jornal. As manchetes eram de serpentinas e confetes soltos pelas ruas e salões… O reino do Momo. Tomou um refrescante banho. Fez a barba. Passou uma perfumada loção no rosto. Vestiu sua melhor roupa. Camisa engomada. Sapatos engraxados. Revigorou-se com meio copo de suco de laranja. Dois cubos de gelo. Pensou nos gastos que iria ter e nas dívidas que já vinham atrás. Saiu de casa. Cruzou o agitado centro da cidade. Passou em frente a Catedral, fez o sinal da Cruz, respeitosamente. Chegou ao conhecido Escadão, na J.J. Rodrigues. Ali existia um ponto de caminhões que faziam carretos. Entrou no primeiro veículo da fila. Cortês, cumprimentou o motorista com um aperto de mão. Mandou tocar para São Paulo. Na grande Capital logo avistou um comércio de ferro-velho. Ajeitou o cabelo pelo retrovisor e aproximou-se do comerciante do local. Mostrando experiência no negócio, perguntou pelo preço da sucata: _ “dez reais o quilo, meu patrão, preço de ocasião”, respondeu o vendedor. Portou-se como bom comprador, não pechinchou no preço. Determinou carregar o caminhão. Carregamento feito emitiu um cheque cruzado para deposito na 2ª. Voltou-se para o motorista e mandou tocar para o interior. No trevo de Americana decidiu pela cidade. Logo avistou um depósito de ferro-velho. Ofereceu a carga. O preço máximo que conseguiu: cinco reais o quilo. Não teve dúvidas: _ descarregue a sucata. O bom motorista do caminhão ficou sem entender nada. Achegou-se dele e disse em voz baixa: “o senhor está perdendo dinheiro, comprou por dez e está vendendo por cinco reais o quilo da sucata, é prejuízo certo!” O conhecido folião não se embaraçou: _ sossega meu bom rapaz. Quem está perdendo dinheiro não sou eu, mas quem recebeu “o meu cheque”… lá trás na Capital!

GUARACI ALVARENGA é advogado. E- mail: guaraci.alvarenga@yahoo.com.br

GUARACI ALVARENGA


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