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Guaraci Alvarenga: Deus lhe pague

GUARACI ALVARENGA | 10/05/2019 | 07:30

Por longos sessenta e dois anos a companheira fiel com o homem que escolheu. Cultivava com extrema dedicação um belo jardim.

As flores colhidas perfumavam a casa. Diferente do cruel piso cimentado, no chão do quintal, floresciam o cajueiro, a pitangueira e o velho abacateiro. Na antiga sacada da casa, as samambaias em espirais dependuradas, tremulavam assopradas pela suave brisa. Nos arredores, junto a clara varanda, os delicados vasos de antúrios, com aromas de todas as cores.
Foi num ambiente assim, simples, mas encantador, de tantas plantas e de intenso amor, que esta corajosa mulher nos criou. Sua dedicação aos filhos assumia a feição de um verdadeiro entusiasmo religioso. Brincar na rua, só com o dever da escola feito. Quando adolescente percebi seus olhos umedecidos quando fui estudar, em lugar distante. O abraço apertado. O beijo afetuoso.

Longe de seus olhos, recluso, doia-me a lembrança constante do lar. Não se tratava de ter ou não capacidade de ficar só, tratava-se de viver a sua ausência. Não a ausência da perda ou de estar longe, mas a presença do amor ausente. O tempo transcorreu.

O estudo, o trabalho, fazia rarear os meus dias de visita, mas não a doce recordação daquele olhar sobre natural. Só ela, nos momentos difíceis, revelava os segredos da vida e com suas palavras, todo o mistério desaparecia. E foi assim por toda uma vida inteira.

Nos últimos anos de existência, ainda era capaz de reunir forças para suportar as provações do destino. A perda do companheiro inseparável e de um dos filhos, não amesquinhou seu coração. Continuou a pessoa bondosa que sempre foi com seus semelhantes.

Quando seu tempo chegou, ainda senti ouvir suas últimas palavras: “não estava cansada da vida, e sim agradecida pela vida que Deus lhe deu, mas sabia que sua missão havia terminado na Terra e já era hora de partir”.

Tinha a persuasão íntima que alguém estava esperando por ela. A saudade feria demais. Exprimiu com um suave sorriso, a alegria de ir ao encontro ao seu grande e único companheiro, agora na certeza da companhia eterna. Partiu e não me deixou.

Como sempre, neste segundo domingo do mês maio, em homenagem a nobreza de sentimentos de todas as mães, celebra-se o seu dia universal, o reluzente brilho de seu amor.

Por certo, todos os meus queridos familiares estarão reunidos, como há tantos anos fazemos, num almoço de paz, de amor e gratidão. Será este ano mais iluminado, com a presença da minha joia Leticia, a doce neta do coração. Naquele distante florido jardim, entre suas rosas, hortênsias, samambaias e antúrios, estará faltando ela, e a saudade infinda dela, continua doendo em mim. Minha mãe! Deus lhe pague.

GUARACI ALVARENGA é advogado. E- mail: guaraci.alvarenga@yahoo.com.br

GUARACI ALVARENGA


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