Opinião

Guaraci Alvarenga: O corte da melancia


O dilema sobre a pandemia é mundial. Enquanto a OMS reforça necessidade de isolamento social e testes para conter transmissões, também alertando que transmissões estão ocorrendo dentro das famílias, a OIT indica que o covid-19 causa perdas devastadoras de empregos e horas de trabalho no mundo. De que lado ficamos? Os líderes mundiais dos países atingidos pela peste estão perdidos. No Brasil há um entrave, com duras críticas de um lado e de outro, com o presidente a favor de um isolamento vertical e o ex-ministro da Saúde defendendo o isolamento horizontal. O presidente não dissocia a pandemia com a economia. Afirma que a hora é de muito trabalho e de permitir novos horizontes para gerar riquezas e erigir um futuro mais justo e humano. Mandetta fala em preservar vidas e prega o afastamento social e que segue as orientações e pesquisas da ciência e OMS. Em verdade, o mundo não tem ainda a real solução para problema. Sobre como sair vivo dele e da maior recessão que o mundo terá. Vamos rezar para a cura o mais rápido possível. Foi a partir destas observações e em tudo o que acontece ao redor, sobre o mal que punge e martiriza as nações, que me lembrei de um velho conto sobre uma parábola social. Relata que existia um reinado, onde se cultivava somente melancias, cujos seus habitantes viviam divididos, quase numa guerra feroz, entre aqueles que cortavam aquela fruta no sentido longitudinal e aqueles que a cortavam lateralmente. Houve época que vários locais foram sitiados, colheitas dizimadas, quase todos passavam fome e nem melancia podiam comer. Fosse qual fosse o partido, havia sempre um inimigo, que o atacava porque cortara a fruta de forma diferente. A mídia de cada facção se envolvia em ataques e os adversários eram chamados de mentirosos. Embora ninguém soubesse quem mentia, todos se imaginavam que eram donos da verdade. Daí os ânimos exaltados. A situação chegou a tal ponto que o rei decidiu intervir, convocando uma assembleia geral, que, aliás, há muito tempo não se reunia. Nesta assembleia, tiveram assento os principais líderes dos dois lados e, após cinco dias e cinco noites de acalorados debates, chegaram a um consenso. A grande solução obtida foi transferir ao rei o poder de decisão. Com sua sabedoria e experiência adquirida ao enfrentar crises morais e institucionais, certamente baixaria um decreto que acabaria com a discórdia sobre o corte da melancia. Ouvidas as partes, o soberano também meditou por alguns dias e algumas noites, e baixou um decreto, que tinha um único parágrafo: “a partir desta data, as melancias devem ser cortadas pelo lado certo. Parágrafo único: revogam-se as disposições em contrário”. GUARACI ALVARENGA é advogado.

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