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Guaraci Alvarenga: o corte da melancia

GUARACI ALVARENGA - opiniao@jj.com.br | 16/03/2018 | 02:00

Viveremos mais um grande ano eleitoral. A política, como todos sabemos, possui um discurso mais mítico do que racional. Entende-se que o voto, no mais das vezes, não é uma aposta numa ideia e sim um ato de fé. È compreensível que os políticos pretendam, em suas palavras, atingir mais o coração do que o cérebro de seus eleitores. Mas convenhamos. Por certo em nossa cidade haverá uma invasão de propaganda eleitoral que atingirá um cinismo intolerável. Candidatos, que nada fazem por nossa comunidade e que deveriam ser retratados no álbum das desgraças passadas, tenderão a se revitalizar perante os eleitores, pela falta de memória ou opção para melhor. E a lei da “Ficha Limpa”? No dizer do francês Jean Cruet, em seu livro “A vida do direito e a inutilidade das leis”, a lei não resolve tudo. “ Sempre se viu a sociedade modificar a lei; nunca se viu a lei modificar a sociedade”. Quem precisa de reforma é o homem. Esta polêmica se estende agora à impugnação do candidato por condenação judicial em segunda instância.

GUARACI ALVARENGA

Lembrei-me de um velho conto, lido de um jornal, sobre uma parábola social. Peço licença para contar. “Existia um reinado onde se cultivava somente melancias, cujos seus habitantes viviam divididos, quase numa guerra feroz, entre aqueles que cortavam aquela fruta no sentido longitudinal e aqueles que a cortavam lateralmente. Teve época que vários locais foram sitiados, colheitas dizimadas, quase todos passavam fome e nem a melancia podiam comer. Fosse qual fosse o partido, havia sempre um inimigo, que o atacava porque cortara a fruta de forma diferente. A mídia de cada facção se envolvia em ataques e os adversários eram chamados de mentirosos, embora ninguém soubesse quem mentia. Todos se imaginavam donos da verdade, daí os ânimos exaltados. A situação chegou a tal ponto que o rei decidiu intervir, convocando uma assembleia geral, que, aliás, há muito tempo não se reunia. Nesta assembleia, tiveram assento os principais líderes dos dois lados e após cinco dias e cinco noites de acalorados debates, chegaram a um consenso. A grande solução: transferir ao rei o poder de decisão. Com sua sabedoria e sua experiência adquirida em enfrentar crises morais e institucionais, certamente baixaria um decreto que acabaria com a discórdia sobre o corte da melancia. Ouvidas as partes, o soberano também meditou por alguns dias e algumas noites e baixou um decreto. Tinha um único parágrafo: ‘A partir desta data, as melancias devem ser cortadas pelo lado certo. Parágrafo único: revogam-se as disposições em contrário’”. Este é o caso atual. Embora exista a lei, ainda duvidam do lado certo. Perdoem-me se estiver errado e os que pensam ao contrário. Um candidato a cargo público deve ser julgado sim, por sua integralidade, mas principalmente e antes de tudo, por sua conduta no passado.

GUARACI ALVARENGA é advogado. E-mail: guaraci.alvarenga@yahoo.com.br


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