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Guaraci Alvarenga: O juiz, o advogado e o bandido

GUARACI ALVARENGA | 28/06/2019 | 07:30

Assisti dias destes, um documentário sobre o Papa Francisco. Confessou que o sorriso e o senso de humor faz entender que a vida é passageira e ajuda a enfrentar as coisas com um espírito de alma redimida. É uma atitude humana, mas a mais próxima da graça de Deus. Ao falar em senso de humor, lembrei-me de um caso que teria ocorrido no Tribunal do Júri em Jundiaí. Advogados, dos velhos tempos, recordam com apreço de um saudoso colega, figura muito conhecida e querida na cidade. Era um causídico de baixa estatura, mas eloquente como orador. Certa vez, o ilustre advogado, foi indicado para defender um perigoso réu, em crime de homicídio qualificado. Além de réu confesso, o delinquente apresentava maus antecedentes e risco eminente à tranquilidade social. O crime havia repercutido, por motivo fútil, pelo assassinato de um pai de família, humilde e com muitos filhos ainda por criar. Sua condenação esperada, inquestionável. Entretanto o nobre advogado nomeado procurou dar conta do recado. Se não podia absolvê-lo, buscaria atenuar a pena do réu, reduzindo os anos de cadeia Dia do julgamento. A sessão plenária do Júri teria sido presidida por um jovem Juiz de Direito, nascido jundiaiense, o dr. Soares Levada, hoje um dos mais brilhantes desembargadores do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Digo isto, porque quando se consulta a jurisprudência de nossos Tribunais, há sempre uma respeitável sentença deste nobre Magistrado, a nos ensinar, que onde houver o conflito entre o Direito e a Justiça, há de se ficar com a Justiça. O douto representante do Ministério Público apresentou-se usando a tradicional beca, acompanhado das formalidades que imprimem o caráter de importância, no julgamento de um ser humano. O nosso colega advogado não deixou por menos. Veio vestido de um caríssimo terno branco de linho, com um lenço branco aberto no bolsinho do paletó. Talvez uma infelicidade para a ocasião. Sua roupa, branquíssima, contrastava com aquele ambiente triste de julgamento, que antevia uma condenação dura à um crime hediondo. Sorteado os jurados, dada a palavra à acusação, o promotor público se resumiu nas provas robustas do crime e pediu a condenação do réu.

O nosso colega pressentindo a condenação certa pelo conselho de jurados, enveredou a defesa do seu réu pelo campo da psicologia e do conhecimento da alma. O Conselho de Sentença recolhido à sala secreta houve unanimidade pela condenação, sem atenuantes. De volta ao plenário, sua excelência o Juiz leu a sentença condenatória, em sua pena máxima. Dirigindo seu olhar para o réu perguntou-lhe se tinha algo a dizer. O confesso condenado, ainda assim, sem qualquer arrependimento, não se deixou abater: Do lado do defensor com o seu terno branco: – “Doutô”, por favor, da próxima vez que indicar alguém para me defender, indique um advogado, não um “pai de santo”.

GUARACI ALVARENGA é advogado. E- mail: guaraci.alvarenga@yahoo.com.br


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