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Guaraci Alvarenga: Velhos tempos

GUARACI ALVARENGA | 09/11/2018 | 07:30

Corriam os dourados anos 60. Velhos tempos do perfume Lancaster, da calça Lee, do isqueiro Resnon, dos cabelos longos com brilhantina. Sapatos sem meia. Camisa fora da calça. As bebidas ganhavam relevância no social. Cuba libre, gin tônica, vermute com pinga, Martini com cereja, vodca com groselha, Campari, whisky com gelo, a saborosa “caipirinha”. Amava os Beatles e Rolling Stones. O mundo conhecia a Bossa Nova.

Nestes dias, onde se encontra um triste estacionamento, no centro da cidade, era o local do requintado cine Marabá, palco de parte da história romântica de Jundiaí daqueles tempos. Nos fundos, de frente para a rua Senador, erguia-se um histórico prédio assobradado, de bela arquitetura, que foi a antiga Casa Diocesana.

Com a saída da Cúria foi transformada numa pensão familiar. O local acolhia entre os hospedes, os conhecidos “pensionistas”, a maioria estudantes, que aqui chegavam, para completar seus estudos. Médicos, dentistas, economistas, advogados e tantos outros, que hoje, ainda labutam nesta terra, tiveram seus nomes registrados nos apontamentos da hospedaria.

Conheci o Messias. Pessoa carismática, de agradável conversa. Não tinha assunto que não era “expert”. De tudo, se passava por entendido. Assim, num piscar de olho, se transformava em especialista em qualquer profissão. Tinha daquelas conhecidas “carteirinhas”, com o brasão brasileiro, compradas de camelôs, no largo da Sé, na Capital. Fácil era tomar feição de “autoridade”. Delegado de Polícia, promotor público, juiz federal, general, não deixava por menos, era só cargos importantes.

Os finais de semana a gente se reunia para buscar diversão. A condução era o carrão importado, um Impala cinza, do saudoso Gibico Pichi. O querido “Zé da Mula”, conhecido cavaleiro, era o motorista. Comer um franguinho, no Chico Louco em Valinhos, o file a “parmejana” no Alemão em Itu, ou um pulo no Pito Aceso em Itatiba, quase era rotina. Tudo isso, sem antes não tomar uma “caipirinha” no Redondo, em Jundiaí. Soube-se que tinha um bom restaurante em Pedreira, onde se servia um apetitoso prato de camarão. Fomos lá. Tino e Cilico nos acompanharam. Comentaram sobre um baile num clube da cidade.

O Messias logo falou: deixa comigo. Identificou-se como coronel. Apresentou-nos como major, capitão, tenente e por último o Cilico, como soldado. Entramos. O Cilico interrompeu a “cena teatral”. Aqui ninguém é militar. Fomos obrigados a se retirar. Travou-se um diálogo. Por que aprontou essa? Ora, só eu passei por soldado. O astuto Messias não perdeu a posição. Você prestou serviço militar. O motorista é um cargo de confiança. Com um maroto sorriso, conhecendo o estilo de fantasias do amigo, olhou para o Messias e disse: “E quem colocou na sua cabeça que você é um militar graduado?”

GUARACI ALVARENGA é advogado. E-mail: guaraci.alvarenga@yahoo.com.br

GUARACI ALVARENGA


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