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Gustavo Úngaro: ouvir é respeitar

GUSTAVO ÚNGARO - opiniao@jj.com.br | 20/03/2018 | 03:00

Ouvir o que a outra pessoa tem a dizer e, com ela, interagir. Haverá atitude mais expressiva da essência do ser humano, base para o estabelecimento da comunicação e da compreensão sobre a coexistência e a convivência? Na ditadura, a voz da força bruta se impõe a todos os ouvidos, mas ela nada se dispõe a ouvir que não a si própria. Na democracia, as vozes são plurais e diversificadas, assim como os ouvidos que as recebem, construindo-se a convergência, em busca de finalidades comuns a partir de análise e crítica compartilhadas. O Estado, como organização institucionalizada do poder coletivo, procura sempre contar com uma Ouvidoria, pois mesmo uma pessoa jurídica sente a necessidade de se conectar com a realidade por meio da escuta das pessoas físicas. Nos tempos imperiais, o Ouvidor era a autoridade enviada pelo rei para representá-lo perante os súditos, a fim de colher informações relevantes para a comando superior. Em tempos democráticos, o ouvidor passa a ser o representante do cidadão perante a autoridade escolhida pelo povo, oxigenando a instituição pública por meio da participação das pessoas, evidenciando ser o Estado meio para a concretização de fins de interesse geral.

Atualmente, a Ouvidoria está presente nos três Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) e nas três esferas públicas (federal, estadual e municipal), para assegurar a participação e o caráter democrático do governo, recolhendo todas as reclamações, sugestões, denúncias, elogios e pedidos de informação, mas também está agindo nas empresas, garantindo a abertura e a consideração desde a perspectiva dos consumidores, nos jornais (a figura do ombudsman), levando para as redações e páginas dos periódicos as críticas dos leitores, e até nas entidades da sociedade civil (o Centro Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade de Direito da USP, instituiu seu Ombudsman, eleito pelos estudantes, em 1994). Somente no estado de São Paulo foram recebidas, consideradas e respondidas, no ano passado, manifestações de mais de um milhão e cem mil pessoas, muitas delas pela internet (www.ouvidoria.sp.gov.br). E assim precisa ser, pois quem ouve mais, erra menos – e pode se tornar cada vez melhor.

GUSTAVO UNGARO é bacharel e mestre em Direito pela USP, professor da Universidade Nove de Julho e ouvidor geral do estado de São Paulo


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