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Heitor Freddo: VAR e a arte de brigar com a imagem

HEITOR FREDDO | 21/10/2018 | 06:01

O VAR está prestando um enorme serviço ao futebol. Depois dos erros absurdos cometidos em jogos da Libertadores e Copa do Brasil, a tecnologia está escancarando o despreparo da arbitragem sul-americana – especialmente a brasileira. Porque nem o uso da imagem está evitando injustiças cometidas por quem está em campo justamente para não atrapalhar o andamento das partidas.

Depois da polêmica decisão entre Corinthians e Cruzeiro, com duas decisões equivocadas – não foi pênalti de Thiago Neves em Ralf e Jadson não cometeu infração ao tocar em Dedé -, o que mais se ouviu foram condenações ao árbitro de vídeo, como se a culpa pelos erros fossem das imagens oferecidas a quem realmente toma as decisões.

Culpar o VAR por equívocos é o mesmo que jogar fora o sofá onde o marido flagrou uma cena de adultério da esposa. As imagens que assistimos em casa foram as mesmas que o árbitro viu no gramado. Se o dono da apito enxergou o que não aconteceu, a culpa é de quem briga com a imagem e não da imagem em si.

Outra análise feita após a partida é a de que o erro foi ter passado as imagens em câmera lenta, já que em baixa velocidade qualquer toque se transforma em um golpe de MMA. Isso faz sentido, mas é surreal pensar que um árbitro escolhido para apitar a final do segundo mais importante torneio do país se deixe levar por algo que qualquer pessoa com bom senso deveria saber.

O projeto de profissionalização da arbitragem é antigo e precisa ser colocado em prática. Mas nesses casos – somado ao cartão vermelho ao zagueiro Dedé contra o Boca Juniors na Bombonera – não há carteira assinada que melhore a capacidade individual para exercer tal função. Arbitragem exige talento como qualquer profissão e o Brasil, que já teve árbitros polêmicos, mal intencionados, durões e de todo tipo de função, vive hoje a geração dos juízes incompetentes.

Se houvesse qualquer intenção para beneficiar ou prejudicar um finalista, o árbitro não usaria a tecnologia para mostrar ao mundo inteiro que está equivocado. E muito menos assinalaria uma bobagem para cada lado – os deuses do futebol escreveram certo por imagens tortas.

O Cruzeiro chegou à final da Copa do Brasil por um erro, foi eliminado da Libertadores por outro e conquistou a taça nacional em um jogo polêmico. O time mineiro ficará com a imagem que hoje é associada a Corinthians e Flamengo – “apito amigo”, time dos homens de amarelo e por aí vai. O Brasil ganhou um campeão de direito, pois o Cruzeiro jogou bola suficiente para ter reconhecimento além dos equívocos. E a arbitragem ganhou a chance de repensar toda a base de formação e escolha de profissionais incapacitados intelectualmente até para assistirem televisão.

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação


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