Opinião

Hienas, leões e coringas


O Brasil é um país fascinante. Anda, inclusive, numa fase muito inspirada para nos fazer rir como hienas. Dizem que esses estranhos animais estão acostumados a rir de sua própria desgraça. Mas me pergunto: pode um leão ser acossado, amedrontado por hienas, así no más? Hienas latino-americanas inclusive? Leões, conhecemos vários, um deles todos os anos nos açoita com sua imagem de grande e faminto: é o leão que todos os anos se alimenta de nossos níqueis, para fazer sei lá o quê. Há também o Rei Leão, aquele da Disney, cujo irmão se corrói de desejo de ocupar o lugar do rei, e que terminou sendo atacado por hienas... Será que é daí que surgem as hienas do vídeo-fábula que nosso presidente fez circular no dia 28 de outubro? Será que o presidente não se sente como o rei oficial, aquele que tem poderes suficientes para ser um líder de Estado, que discorre sobre as grandes questões de uma Nação, que vem para discutir democraticamente os problemas nacionais, regionais, inter-regionais e globais? Por que esse pobre leão se sente tão amedrontado? Perseguido? O outro leão é o da Paramount Filmes. Durante muito tempo convivemos com o leão da tela, rugindo sem parar e anunciando os grandes filmes de produção internacional. Se estivesse em forma, sem dúvida anunciaria o filme Coringa. Super-herói combalido, visto em sua faceta humana, e rindo doente e tristemente da dor de viver, da dor de ser, das dores do mundo, tentando mostrar as crueldades de que somos vítimas. Vítimas da surdez paralisante, da surdez incriminadora, da risível surdez dos mecanismos de Estado que não acolhem, que não funcionam, que não são empáticos com o sofrimento humano. Diante da falta de espaço para o diálogo, hienas, coletivamente organizadas, podem atacar mesmo, assim como o super-herói em sua faceta humana pode chegar a extremos quando desrespeitado em seus direitos mais básicos, como o direito humano de ser considerado com alguma dignidade. Entre a dor da exclusão e o desamparo da existência, o desejo e a singularidade são saídas que clamam por se reformatar num universo que pode ser extremamente produtivo e sensível. Pequenos sonhos precisam ser formatados novamente. Dentro do universo desejante de cada um, a reconstrução precisa ser feita, aos poucos, dentro e fora de cada um. Não nos acostumemos com a dor, mas busquemos formas de transformá-la em algo que esteja mais próximo de um bem coletivo. Nós, por nós. Nem hienas, nem leões, nem coringas, mas singularidades transformadoras, plantadas na força do desejo e da democracia. MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo), da Unicamp  

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