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História do Porto

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE | 09/07/2020 | 05:50

Dolorosa a partida dele após o enfarte. Não fazia muito que estivera hospitalizado por outro problema. Sentiu-se mal e ela o acompanhou à UPA. União de 18 anos. Teve alta e se dirigiram ao ponto de ônibus. Oscilou e retornaram ao atendimento médico. Disse-lhe que estava morrendo e se foi. Dor demais para a mulher.

Como não seria possível passar a noite em velório, conversamos até a madrugada. Conheço um pouco de sua história. Vi-a pela primeira vez na década de 90 e seu olhar, feito de ternura, desencanto e esperança, me tocou o coração. Reencontramo-nos em 2005 e foi bom demais recuperar sua presença em meus caminhos. Em tempo de incertezas, fortaleceu um de meus sonhos.

Continua pesarosa e compreendo. Relacionamento de esposa e mãe. Ele viera do Nordeste e, desde que chegou, perdeu o contato com a família. A companheira enviou alguns dados para um programa de TV da cidade mais próxima, com o propósito de recuperar alguém de sangue. Inútil. Conheceram-se nas proximidades da construção em que trabalhava de ajudante de pedreiro. Tornou-se direção para ele. A situação de miséria, da terra natal, lhe negou a escola. Não saber ler o enchia de medos. Como tomar o ônibus correto ao se dirigir a algum lugar? Precisava dela. Ser importante na vida dele lhe fazia bem. Tê-la lhe dava amparo.

O porto em que ancoraram, em parceria, não importa se havia atritos, os sustentava. Penso que, nos relacionamentos que tivera, buscava esse permanecer que ele lhe oferecera. Recordei-me de versos de um poema do saudoso poeta jundiaiense Aristides Prado, mais ou menos desta forma: “Três mulheres pousaram no meu leito, / mas nenhuma dormiu em minha vida”. É bem assim: existe o sonho de perdurar na vida de alguém. Acontecera com ela depois de décadas.

Lembro-me de que, semanas antes dele partir, ela me disse ser a música que marcara a sua vida: “Legata a Un Granello Di Sabbia” com Nico Fidenco. “Me queres deixar e tu vais fugir/ Mas só no escuro depois me chamarás. (…) Te quero embalar, embalar pousando-te/ Na onda do mar, do mar./ Amarrando-te a um grãozinho de areia/ Assim tu, na neblina não podes fugir mais/ E junto a mim tu ficarás…”

Hoje, ele se encontra com a âncora de sua embarcação presa ao Céu, porém nos elos da corrente existem as marcas de fortaleza e ternura dela, que se refletem no brilho do luar.

 

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE é professora e cronista


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