Opinião

Inquietude


O coronavírus me inquieta, mais que me atemoriza. Como diz Toquinho em sua canção Aquarela. “...E o futuro é uma astronave/ Que tentamos pilotar/ Não tem tempo nem piedade/ Nem tem hora de chegar. / Sem pedir licença/ Muda nossa vida/ E depois convida/ A rir ou a chorar. / Nossa estrada não nos cabe/ Conhecer ou ver o que virá/ O fim dela ninguém sabe/ Bem ao certo onde vai dar...” O covid-19 quebrou a au<CW11>tossuficiência em planejamentos do hoje e do amanhã. Tenho certeza de que o isolamento social e outras medidas são relevantes. A grande chance de vencer o vírus está em impedir o acesso aos seus hospedeiros, ou seja, às pessoas de todas as idades. Não consigo, porém, deter-me em mim mesma. Como fica a situação da mãe de cinco filhos que necessitou dividi-los em casas de parentes e vizinhos com o propósito de que não passem fome? Laços de ternura fragilizados. E a mãe que vendeu um móvel essencial na casa, em duas parcelas de 50 reais, para comprar alimento para os filhos? As diaristas dispensadas pelo medo de que se contaminem no transporte público e espalhem o vírus? As mulheres do comércio do sexo, cujos fregueses permanecem, muitos deles idosos, sem a preocupação com o mal que os ronda? E os meninos que jogam bola nas vielas das periferias? Ao retornar, juntam-se aos irmãos, avós, pais... Como fazer para que adolescentes, no vácuo da escola e de projetos dos quais participam, distanciem-se das ruas e dos “atrativos” das biqueiras? Que complicado! Minha inquietude vem, além disso, de minha pretensão, no estilo do que escreveu Clarice Lispector, mais ou menos assim: “Abro a janela e me sinto responsável pelo mundo”. Recorro também a textos que me fortalecem na luta de cada dia. Gabriel Garcia Márquez, em seu livro “Amor nos Tempos de Cólera”, narra a conversa do capitão de um navio com o menino que se encontrava agitado devido à quarentena que o porto havia imposto. Comenta o capitão que, no ano em que tivera de fazer quarentena, os privaram da primavera, mas, por seus novos hábitos positivos, assim mesmo floresceu. Levou a primavera dentro dele e ninguém nunca mais pôde tirá-la. Fico ainda com Guimarães Rosa: “O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e dói, afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. Prudência e esperança para nós! MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE é professora e cronista.

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