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José Renato Nalini: A minha Notre Dame

JOSÉ RENATO NALINI | 16/05/2019 | 07:30

Para quem nasceu numa família digna, mas pobre, em uma cidade do interior brasileiro, não se prenunciaria viesse a conhecer o mundo. Mercê da Providência, que me fez nascer num lar decente e provido de valores, vi na educação a alternativa única para a rota ascensional. Procurei ser sempre bom aluno. Empurrado por minha mãe, cobradora enérgica.
Foi o que me fez escrever desde sempre, datilografar a partir dos dez anos, ser hoje um bom digitador. O que me permite escrever quase que mais rápido do que pensar.
Pois esse jundiaiense já foi dezoito vezes a Paris, a partir de 1976. Em todas elas, visitou a Notre Dame. Na primeira vez, ao chegar à cidade mais encantadora do planeta, ouvia até música, numa euforia quase infantil.
Paris é o lugar em que me sinto mais à vontade. Tenho roteiros para quem a visita por um dia, por uma semana, por alguns meses. Sempre há o que ser visto.
Já lera “O Corcunda de Notre Dame”, já sabia que as imagens haviam sido decapitadas quando da Revolução Francesa. Tinha o sonho de permanecer a apreciar a grande rosácea azul à esquerda da nave central, próxima ao altar-mor.
Nada se compara, todavia, à oportunidade de ter aulas na Escola Nacional da Magistratura. A sala em que fiz um curso de formação para formadores situa-se exatamente ao lado da Catedral. Permaneci horas seguidas, semanas inteiras, a apreciar a maravilhosa arquitetura gótica desse templo cuja construção teve início no início do século treze.
Ainda recentemente, quando minha irmã Jane estava de novo em Paris, pedi a ela um retrato da rosácea. Tanto carinho provocou imensa tristeza pelo incêndio de 15 de abril. Mas até o infortúnio gera conforto. Em vinte e quatro horas, mais de seiscentos milhões de euros foram doados para a reconstrução.
O capelão do Corpo de Bombeiros, Jean-Marc Fournier, conseguiu salvar do fogo o ostensório do Santíssimo Sacramento e a coroa de espinhos que a tradição considera ter sido a original do suplício a que foi submetido Jesus Cristo.
Também foram salvas as relíquias de São Dionísio e Santa Genoveva, contidas dentro do galo de bronze que encimava a flecha, cuja queda foi um golpe doloroso na memória afetiva que todos conservamos do símbolo católico da Cidade Luz.

JOSÉ RENATO NALINI é Reitor da Uniregistral, docente da Pós-Graduação da UNINOVE e Presidente da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS, 2019-2020.

JOSÉ RENATO NALINI

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