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José Renato Nalini: Encontro inadiável

JOSÉ RENATO NALINI | 23/08/2018 | 04:50

O Brasil tem um encontro marcado com a verdade. Encontro do qual não poderá fugir. A surrada escusa de ser um país criança não justifica o retrocesso em todos os setores.  Já fomos mais honestos. Já fomos mais polidos. Já fomos mais limpos. Já fomos mais conscientes. Onde foi parar o conceito de idoneidade? Em que lata de lixo jogaram os bons modos? Por que emporcalhamos o mundo e a nós mesmos, convivendo com esta imundície? Como foi que nos tornamos insensíveis a tudo aquilo que poderia refletir um mínimo de civilidade?

A degradação dos costumes parece haver anestesiado a maior parte da nação. Perdeu-se a capacidade de indignação e, o que é pior, evaporou-se o sopro de esperança que acalentava o maltratado mas resiliente coração dos brasileiros. Já fomos melhores. Orgulhávamo-nos de nossos próceres. Cantávamos os hinos patrióticos e vibrávamos com os símbolos nacionais. Declamávamos poemas épicos, desfilávamos com garbo e galhardia nas datas cívicas. Lotávamos os templos, não nos acomodávamos nem nos impedia o respeito humano de proclamar em público a nossa crença.

Havia pobreza, mas havia dignidade. Não deixávamos os semelhantes nas vias públicas. Nem permitíamos que guetos de viciados e de traficantes ocupassem áreas centrais. Não havia em cada semáforo a humilhante exposição da miséria. Não havia pichação de monumentos, nem de edifícios, nem o abandono dos espaços pretensamente destinados ao povo, com a sua entrega incondicional às vicissitudes humanas e às intempéries.

Podíamos caminhar a qualquer hora por qualquer lugar, fosse edificado, fosse em área rural. Sem temor algum que não os provenientes de nosso rico folclore, prenhe de sacis e de mulas sem cabeça. Hoje o temor nos assalta. Não há território imune à violência. Desconfia-se de tudo e de todos. O mais doloroso é não enxergar perspectiva. É constatar que ninguém mais confia nas soluções rotineiras, nas promessas vãs, na falsidade que envolve a prática daquela atividade que deveria ser a mais nobre dentre todas as escolhas do homem: servir, desinteressadamente, ao semelhante.

É mais do que urgente acertar o passo com a verdade. Reverter o rumo avesso conducente ao caos. Assumir a humanidade plena, com seus deveres, compromissos, obrigações e riscos. Antes que seja tarde. E que não tenhamos passado de um sonho, de um projeto falido, de uma amarga ilusão.

JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista

Foto: Divulgação

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